Segunda-Feira, 20 de Abril de 2015

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Os Desordeiros da Ordem

Classes médias e velha mídia, tradicionalmente identificadas com a defesa da ordem, promovem a agitação para justificar um golpe de estado.

Publicada: 10/03/2015 - 18h03m|Versão para impressão|

  • A marcha da oposição conservadora comandada pela classe alta e neoconservadores ameaçã a democracia
  • A marcha da oposição conservadora comandada pela classe alta e neoconservadores ameaçã a democracia
    Foto: Oswaldo Corneti
Em seu célebre O Dezoito Brumário de Louis Bonaparte, Marx analisa como o “Partido da Ordem”, coalizão de frações burguesas monarquistas, em seu conflito com o presidente Louis Bonaparte, promoveu, em nome da conservação da ordem, um clima de agitação que acabou fornecendo a Bonaparte o pretexto para desferir seu golpe de Estado.

Mais de um século e meio depois, em um palco e com personagens em tudo distintos, assistimos no Brasil de hoje à encenação de uma farsa análoga. As forças políticas e sociais conservadoras, os grandes interesses econômicos, as classes médias, a grande imprensa, o ministério público e o judiciário enfim, as classes, os aparelhos e as instituições tradicionalmente identificadas com a defesa da ordem promovem no país um clima de agitação e mesmo de caos como há muito não se via.


Porém, ao contrário da trama desvendada por Marx, o golpe, se vier, não será desferido pelo executivo federal, encabeçado pela sóbria e silenciosa Dilma Rousseff, mas pela coalizão dos desordeiros da ordem.

Deixando a analogia com a Europa do século XIX de lado e recorrendo a cenários mais próximos e contemporâneos, uma comparação entre a atual crise brasileira e a crise chilena do início dos anos 70 e com a atual vivida pela Venezuela ressaltam ainda melhor o absurdo e farsesco do que estamos a assistir. Se o governo de Salvador Allende, e os de Chavez e Maduro dão, em graus variados, bons motivos para os detentores do capital, do poder e do prestígio sociais amplos e bons motivos para temerem pela segurança de sua propriedade e de sua posição, nada remotamente semelhante pode ser dito a respeito dos governos do PT, muito menos do atual governo de Dilma Rousseff.

Em artigo escrito ao final do ano, o deputado federal Jean Willis (PSOL-RJ), imaginou o espanto de um politólogo extraterrestre diante do paradoxo de um governo desesperado em agradar os grandes interesses econômicos e os grupos mais conservadores e uma oposição que o acusa, aos brados, de “comunista”, “bolivariano”, “castrista”, e outras sandices do gênero.


Em setembro do ano passado, em meio ao clima eleitoral, um familiar indagou à outra parente se ela não via “um risco de venezuelanização” do Brasil com a continuidade de Dilma.


Na época, tratei a pergunta como pura alienação, que nem as drogas mais potentes do mercado seriam capazes de produzir. Porém, hoje, se a pergunta me fosse dirigida, eu responderia o seguinte: “sim, vivemos esse risco. Mas os responsáveis são vocês!”.

A responsável pela “venezuelaniização” de nosso conflito político não é nossa timorata mandatária, cujo “momento Brizola” foi exagerado, admito, pelo meu otimismo pré-eleitoral, não passando disso mesmo, um momento. Não, a responsabilidade recai única e exclusivamente nos ombros da oposição conservadora que ora brada e bate panelas nos bairros da elite, clamando pelo empeachment. Assistimos ao grotesco espetáculo daquela gente que se considera “culta”, “informada”, “responsável”, “ordeira", em suma, “gente de bem”, agir como uma horda de bárbaros, “boçais”, fascistas e ignorantes, que repelem aos gritos e aos pontapés, se preciso for, seus oponentes, aos urros de “petralhas”!, “bolivarianos”, “ladrões”!, “vão todos para Cuba, o SUS e o inferno”!, o que para eles dá no mesmo…


As massas trabalhadoras, dos quais essa mesma “gente de bem”, sempre esperou a barbárie, a violência e a subversão, as que outrora foram chamadas de “classes perigosas”, pelo contrário, se comportam como os autênticos cidadãos pacíficos.

Claro, não lhes faltam motivos para queixas e insatisfação com o atual governo que, embora negue, mexe em seus direitos e lhes joga nas costas o maior peso do arrocho hora em curso. Aliás, os próprios trabalhadores têm clara consciência disso -- não faltam nas periferias das grandes cidades, movimentos sociais como o MTST, para sair as ruas e reclamar os direitos que o Estado brasileiro continua a negar à essa população.

Porém, é óbvio que a maioria dos trabalhadores, ainda que insatisfeitos com o atual governo e com o PT, não embarcam na histeria golpista que tomou conta do andar de cima.

É verdade, alguém poderia me dizer, que o delírio moralista e reacionário dos setores médios, habilmente manipulados pelos prestidigitadores da mídia e do capital financeiro, não tem nada de novo no Brasil. Basta lembrar o pequeno e brilhante ensaio “O Moralismo e As Classes médias”, de Hélio Jaguaribe, que examina os fundamentos sociológicos e o sentido político da campanha que levou, em 1954, ao suicídio do presidente Vargas. Passado mais de meio século, porém, além da sociologia e da ciência política, creio que precisaríamos de outro instrumental analítico para compreender o que se passa: o da psicanálise.

Não por acaso, o psicanalista Christian Dunker, em intervenção recente, invocou seu campo disciplinar para compreender o fenômeno Bolsonaro e congêneres. Mas, mesmo os que não simpatizam com Freud ou Lacan, não podem deixar de reconhecer o traço doentio de manifestações como as do panelaço de hoje (domingo). O grande sociólogo brasileiro, Florestan Fernandes, tinha fortes razões para falar da “resistência patológica” das elites brasileiras a mudança, na qual o reformismo mais tímido é combatido como a ameaça da Revolução.


Diante do avanço aparentemente “irresistível” da direita neofascista, a esquerda se comporta como se estivesse hipnotizada, prostrada, confusa. Dividida e sem direção, como de costume, a esquerda parece não opor senão resistências individuais e desorganizadas a seus adversários, os quais se apresentam como um “exército” coeso. Contudo, retomando a imagem da farsa, toda essa coesão, ainda que tenha inegável realidade – basta pensar no papel crucial do Instituto Milenium e uma densa rede de “think-tanks” neoconservadores – também tem algo de aparente e de jogo de cena. Nós, os democratas e progressistas temos que sacudir a prostração, superar momentaneamente nossas divergências, e reagir à altura ao golpismo desavergonhado. Ninguém precisa ser governista ou petista para entender o que está em jogo nesse momento. Se alguém não acha que o conservador governo Dilma vale uma luta, as liberdades democráticas certamente valem.

E se esse mesmo alguém acha que a democracia não está em perigo, tudo não passando de delírio ou invenção do governismo, que ouça o ruído das panelas dos jardins e pense de novo. Vamos dar um basta à pseudo subversão do andar de cima! Digamos aos desordeiros da ordem a eterna frase da “passionária” Dolores Ibarruy: “no pasarán!”

André Kaysel é Professor de Ciência Política da UNILA

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