Forças pró e contra o governo da Líbia dão sinais de estar se preparando para uma batalha pela capital, Trípoli, após oposição passar a controlar outras regiões
Testemunhas afirmam que a capital está sendo patrulhada por grupos fortemente armados a favor do governo, incluindo milícias que se deslocam pela cidade em veículos.
Há relatos de tanques em movimento nos subúrbios da cidade, assim como de invasão de residências por forças de segurança do governo, em busca de opositores.
Imagens divulgadas pela internet sugerem, por outro lado, que a oposição já tomou cidades a cerca de 50 quilômetros de Trípoli.
Trípoli continua sendo uma espécie de bastião do regime de Muamar Khadafi, depois que a segunda e a terceira cidades do país, Benghazi e Misurata, foram tomadas pela oposição, assim como outras cidades na costa do Mar Mediterrâneo, como Sabratha e Zawiya.
Em Benghazi, sob firme controle da oposição, havia filas para distribuir armas roubadas da polícia e do Exército com a finalidade de iniciar o que o repórter da BBC Jon Leyne chamou de "batalha por Trípoli".
Leyne, que está na Líbia apesar da proibição das autoridades a jornalistas estrangeiros, disse que o regime tem perdido apoio de líderes provinciais que paulatinamente engrossam as fileiras da oposição.
Moradores e militares desertores criaram vários comitês de defesa, inclusive um que protege bases de mísseis nos arredores de Tobruk, no leste.
Na quarta-feira, uma das histórias que ocupou as manchetes foi a de dois pilotos de um avião caça que desobedeceram à ordem de bombardear Benghazi e se ejetaram no deserto, próximo da cidade de Breqa.
À noite, o filho do coronel Khadafi, Saif al-Islam, apareceu na TV nacional afirmando que a situação no país era "normal".
Na terça-feira, também em um discurso transmitido pela TV estatal, o próprio Khadafi descartou a possibilidade de renúncia e disse que morrerá no país "como um mártir".
Khadafi qualificou a oposição de "covardes e traidores" tentando mergulhar o país no caos.
Debandada
Ao menos 300 pessoas morreram na Líbia em conflitos entre manifestantes contrários a Khadafi, há mais de 40 anos no poder, e forças leais ao líder líbio. As estimativas variam de acordo com a fonte.
Ao menos 300 pessoas morreram na Líbia em conflitos entre manifestantes contrários a Khadafi, há mais de 40 anos no poder, e forças leais ao líder líbio. As estimativas variam de acordo com a fonte.
Enquanto os confrontos se acirram, estrangeiros tentam deixar a Líbia. Governos de vários países estão enviando balsas, aviões e navios para resgatar seus cidadãos.
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou que um navio de grande porte partiu da Grécia rumo à Líbia, onde um grupo de 148 brasileiros e cidadãos de outras nacionalidades aguarda para ser resgatado.
Segundo o Itamaraty, também foram obtidas as autorizações para a aterrissagem, no aeroporto de Trípoli, de cinco vôos fretados por empresas brasileiras que operam na Líbia, para o embarque de seus funcionários. Eles devem ser evacuados entre a noite desta quarta e a quinta-feira.
Na quarta-feira, duas balsas da Turquia conseguiram retirar cerca de 3 mil de seus cidadãos de Benghazi, onde vive um grande número de turcos que trabalham para empresas de construção.
Outros países, como França, Rússia, Holanda e Índia também já conseguiram evacuar parte de seus cidadãos.
A Grã-Bretanha enviou um avião para resgatar britânicos na Líbia e posicionou um navio de guerra próximo à costa do país.
O governo chinês, por sua vez, enviou aviões e navios para retirar cerca de 40 mil de seus cidadãos da Líbia. A operação conta com a colaboração da Grécia e da Itália, segundo a agência de notícias estatal grega ANA-MPA.
Analistas apontam para os efeitos econômicos, sobre o regime, da saída em massa de estrangeiros - muitos, trabalhadores de empresas de construção e infra-estrutura.
Condenação
No plano diplomático, a condenação ao regime de Khadafi continuou na quarta-feira.
A União Europeia decidiu preparar sanções contra o governo em resposta à violenta repressão dos protestos.
Segundo fontes diplomáticas, isso deverá acontecer depois que o bloco finalizar a repatriação dos cerca de 10 mil europeus que se encontram na Líbia, para evitar que esses cidadãos possam sofrer algum tipo de repressão.
Nos Estados Unidos, em seu primeiro pronunciamento sobre a crise líbia transmitido pela TV, o presidente Barack Obama disse que a violência contra manifestantes pacíficos é ultrajante e inaceitável.
"Como todos os governos, o da Líbia tem a responsabilidade de evitar a violência, de permitir assistência humanitária aos que precisam e a respeitar os direitos de seus cidadãos", disse Obama.
Horas antes, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, também havia afirmado que o governo líbio deve ser responsabilizado pelo uso de força contra manifestantes pacíficos.
"Estamos nos unindo com o resto do mundo para enviar uma mensagem clara para o governo líbio de que a violência é inaceitável e que o governo líbio será responsabilizado pelas ações que está tomando", disse Hillary.