Sexta-Feira, 03 de Agosto de 2012

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O último encontro com Lula

Uma coisa é indiscutível: o operário metalúrgico converteu-se atualmente em um estadista destacado e prestigiado, cuja voz é escutada com respeito ...

Publicada: 03/03/2010 - 19h28m|Fonte: Fidel Castro Ruz|Versão para impressão|0 comentário(s)

  • O último encontro com Lula
O conheci em Manágua (Nicarágua), em julho de 1980, há 30 anos, durante a comemoração do primeiro aniversário da Revolução Sandinista, graças a meus contatos com os partidários da Teologia da Libertação, que começaram no Chile, quando, em 1972, visitei o presidente Allende.

Por Frei Betto, eu sabia quem era Lula, um líder operário em quem os cristãos de esquerda colocavam suas esperanças.

Tratava-se de um humilde operário da indústria metalúrgica que se destacava por sua inteligência e prestígio entre os sindicatos, na grande nação que emergia das trevas da ditadura militar imposta pelo império ianque, na década de 60.

As relações do Brasil com Cuba tinham sido excelentes até que o poder dominante no hemisfério fez com que elas sucumbissem. Passaram-se décadas até que voltassem lentamente a ser o que são atualmente.

Cada país viveu sua história. Nossa pátria suportou inusitadas pressões nas etapas incríveis vividas desde 1959, em sua luta diante das agressões do império mais poderoso que já existiu na história.
Por isso, a reunião que acaba de acontecer em Cancun e a decisão de criar uma Comunidade de Estados da América Latina e do Caribe é de grande transcendência para nós. Nenhum outro fato institucional de nosso hemisfério durante o último século reflete transcendência similar.

O acordo é alcançado em meio a mais grave crise econômica que já aconteceu no mundo globalizado, coincidindo com o maior perigo de catástrofe ecológica de nossa espécie e também com o terremoto que destruiu Porto Príncipe, capital do Haiti, o mais doloroso desastre humano da história de nosso hemisfério, no país mais pobre do continente e no primeiro onde a escravidão foi erradicada.

Quando escrevia essa reflexão, a seis semanas da morte de mais de duzentas mil pessoas, de acordo com as cifras oficiais, chegaram notícias dramáticas dos danos causados por outro sismo no Chile, que ocasionou a morte de pessoas cujo número se aproxima a mil, segundo cifras das autoridades, e enormes danos materiais. As imagens do sofrimento de milhões de chilenos atingidos material ou emocionalmente por esse duro golpe da natureza comoviam. Afortunadamente o Chile é um país com mais experiência frente a esse tipo de fenômeno, muito mais desenvolvido economicamente e com mais recursos. Se não pudesse contar com infraestruturas e edificações mais sólidas, um incalculável número de pessoas, talvez dezenas ou centenas de milhares de chilenos teriam perecido. Fala-se de dois milhões de danificados e possíveis perdas que oscilam entre 15 e 30 bilhões de dólares. Em sua tragédia, conta também com a solidariedade e a simpatia dos povos, entre eles, o nosso, cujo governo foi um dos primeiros a expressar ao Chile sentimentos de solidariedade quando as comunicações ainda estavam avariadas e apesar de que podemos fazer pouco diante do tipo de cooperação que estão necessitando no momento

O país que hoje põe à prova a capacidade do mundo para enfrentar a mudança climática e garantir a sobrevivência da espécie humana é, sem dúvida, o Haiti, por constituir um símbolo da pobreza que hoje padecem milhares de pessoas no mundo, incluída uma grande parte dos povos de nosso continente.

O que aconteceu no Chile com o terremoto de incrível intensidade (8,8º em escala Richter e a mais profundidade do que o que atingiu o Haiti), me obriga a enfatizar a importância e o dever de estimular os passos de unidade alcançados em Cancun; mesmo que não me iluda sobre o difícil e complexa que será nossa luta de ideias frente ao esforço do império e de seus aliados dentro e fora de nossos países para frustrar a tarefa unitária e independentista de nossos povos.

Desejo deixar constância escrita da importância e do simbolismo que para mim teve a visita e o último encontro com Lula, desde o ponto de vista pessoal e revolucionário. Ele disse que, perto de finalizar seu mandato, desejava visitar seu amigo Fidel; qualificativo honroso que recebi de sua parte. Creio conhecê-lo bem. Conversamos várias vezes fraternalmente dentro e fora de Cuba.

Uma vez tive a honra de visitá-lo em sua casa, situada em um modesto bairro de São Paulo, onde residia com sua família. Para mim, foi um encontro emotivo com ele, sua esposa e seus filhos. Não esquecerei nunca a atmosfera familiar e saudável daquele lar e o sincero afeto com que seus vizinhos falavam com ele, quando Lula já era um líder operário e político de prestígio. Ninguém sabia naquele momento se chegaria ou não à presidência do Brasil, pois os interesses e forças que se opunham eram muito grandes; porém, me agradava falar com ele. Lula não se importava muito com o cargo; o satisfazia o prazer de lutar e o fazia com grande modéstia; a mesma que demonstrou quando, tendo sido vencido por duas vezes por seus poderosos adversários, somente aceitou a postulação do Partido dos Trabalhadores por uma vez mais devido á forte pressão de seus amigos mais sinceros.

Não contarei quantas vezes nos falamos antes que chegasse à presidência; uma delas, nos primeiros tempos, na década de 80, quando lutávamos em Havana contra a dívida externa da América Latina, que, naquele tempo ascendia a 300 bilhões de dólares e havia sido paga mais de uma vez. Lula é um lutador nato.

Como disse, por duas vezes seus adversários, apoiados em enormes recursos econômicos e midiáticos, o derrotaram nas urnas. Seus colaboradores mais próximos e amigos sabiam, no entanto, que havia chegado a hora daquele humilde operário ser candidato do Partido dos Trabalhadores e das forças da esquerda.

Certamente, seus oponentes o subestimaram; pensaram que não poderia contar com maioria alguma no órgão legislativo. Já não existia a URSS. O que Lula poderia significar na presidência do Brasil, uma nação de grandes riquezas; porém, de escasso desenvolvimento em mãos de uma burguesia rica e influente?

No entanto, o neoliberalismo entrava em crise, a Revolução Bolivariana havia triunfado na Venezuela; Menem estava em queda vertical; Pinochet havia desaparecido de cena; e Cuba resistia. Porém, Lula é eleito quando Bush triunfa fraudulentamente nos Estados Unidos, despojando da vitória ao seu rival Al Gore.

Iniciava-se uma difícil etapa. Impulsionar a carreira armamentista e, com ela, o papel do Complexo Militar Industrial, e reduzir os impostos aos setores ricos, foram os primeiros passos do novo presidente dos Estados Unidos.

Com o pretexto da luta contra o terrorismo, reiniciou as guerras de conquista e institucionalizou o assassinato e as torturas como instrumento de domínio imperialista. São impublicáveis os fatos relacionados com as prisões secretas, que delatavam a cumplicidade dos aliados dos Estados Unidos com essa política. Desse modo, acelerou-se a pior crise econômica dentre as que, de maneira cíclica e crescente, acompanham ao capitalismo desenvolvido; porém, desta vez, com os privilégios de Bretton Woods e sem nenhum de seus compromissos.

O Brasil, por sua parte, nos últimos oito anos sob a direção de Lula, vencia obstáculos, incrementava seu desenvolvimento tecnológico e potencializava o peso da economia brasileira. A parte mais difícil foi seu primeiro período; porém, teve êxito e ganhou experiência. Com seu incansável batalhar, serenidade, sangue frio e crescente consagração à tarefa em condições internacionais tão difíceis, o Brasil alcançou um PIB que se aproxima aos dois bilhões de dólares. Os dados variam segundo as fontes; porém, todas o situam entre as 10 maiores economias do mundo. Apesar disso, com uma superfície de 8 milhões de quilômetros quadrados, frente aos Estados Unidos que apenas possui algo mais de território, o Brasil alcança somente cerca de 12% do PIB desse país imperialista que saqueia o mundo e desloca suas forças armadas em mais de mil bases militares em todo o planeta.

Tive o privilégio de assistir à sua posse, no final de 2002. Também esteve Hugo Chávez, que acabava de enfrentar o golpe de Estado traidor, de 11 de abril desse ano e, posteriormente, o golpe petroleiro organizado por Washington. Bush era presidente. As relações entre o Brasil, a República Bolivariana e Cuba sempre foram boas e de respeito mútuo.

Eu tive um sério acidente em outubro de 2004, que limitou seriamente minhas atividades durante meses e fiquei gravemente enfermo no final de julho de 2006, em virtude do qual não vacilei em delegar minhas funções à frente do Partido e do Estado, na proclamação de 31 de julho desse ano, em caráter provisório, porém, em seguida, em caráter definitivo, quando compreendi que não estaria em condições de assumi-las novamente.

Quando à gravidade de minha saúde me permitiu estudar e meditar, me consagrei a isso e a revisar materiais de nossa Revolução e, de vez em quando, a publicar algumas Reflexões.

Depois que fiquei enfermo, tive o privilégio de ser visitado por Lula por quantas vezes veio à nossa pátria e de conversar amplamente com ele. Não direi que sempre coincidi com toda sua política. Por princípio, sou oposto à produção de biocombustível a partir de produtos que possam ser utilizados como alimentos, consciente de que a fome é e poderá ser cada vez mais uma grande tragédia para a humanidade.

No entanto, o expresso com toda franqueza, não é um problema criado pelo Brasil e muito menos pelo Lula. Faz parte inseparável da economia mundial imposta pelo imperialismo e por seus aliados ricos que, subsidiando suas produções agrícolas, protegem seus mercados internos e competem no mercado mundial com as exportações alimentares dos países do Terceiro Mundo, obrigados a importar em troca dos artigos industriais produzidos com as matérias primas e os recursos energéticos deles mesmos que herdaram a pobreza de séculos de colonialismo. Compreendo perfeitamente que o Brasil não tinha alternativa frente à competição desleal e os subsídios dos Estados Unidos e da Europa do que incrementar a produção do etanol.

A taxa de mortalidade infantil no Brasil, todavia é de 23,3 por cada mil nascidos vivos e a mortalidade materna de 110 por cada 100 mil partos, enquanto que nos países industrializados e ricos é menos de 5 e 15, respectivamente. Poderíamos citar outros dados similares.

O açúcar de beterraba, subsidiado pela Europa, arrebatou nosso país do mercado açucareiro, derivado da cana de açúcar, trabalho agrícola e industrial precário e eventual que mantinha aos trabalhadores açucareiros no desemprego por grande parte do tempo. Os Estados Unidos, por seu lado, se apoderou de nossas melhores terras e suas empresas eram donas da indústria. Um dia, abruptamente, nos despojaram da quota açucareira e bloquearam nosso país para esmagar a Revolução e a independência de Cuba.

Hoje, o Brasil desenvolveu o cultivo da cana de açúcar, da soja e do milho com máquinas de alto rendimento que podem ser empregadas nesses cultivos com altíssima produtividade. Um dia, quando observei a filmagem de uma extensão de 40 mil hectares de terra em Ciego de Ávila dedicada ao cultivo da soja em rotação com milho, onde tentavam trabalhar durante todo o ano, exclamei: é o ideal de uma empresa agrícola socialista, altamente mecanizada com elevada produtividade por home/por hectare.

Os problemas da agricultura e suas instalações no Caribe são os furacões que, em número crescente, arrasam seu território.

Também nosso país elaborou e assinou com o Brasil o financiamento e construção de um moderníssimo porto em Mariel, que será de enorme importância para nossa economia.

Na Venezuela, estão utilizando a tecnologia agrícola e industrial brasileira para produzir açúcar e utilizar o bagaço como fonte de energia termoelétrica. São equipamentos de tecnologia avançada que trabalham também em uma empresa socialista. Na República Bolivariana utilizam o etanol para melhorar o efeito ambientalmente nocivo da gasolina.

O capitalismo desenvolveu as sociedades de consumo e também o desperdício de combustível que engendrou o risco de uma dramática mudança climática. A natureza tardou 400 milhões de anos em criar o que nossa espécie está consumindo em apenas dois séculos. A ciência não resolveu o problema da energia que substituirá a que hoje é gerada pelo petróleo; ninguém sabe quanto tempo requererá e quanto custaria resolvê-lo a tempo. Disporá dele? Isso foi discutido em Copenhague, e a Cúpula foi um fracasso total.

Lula me contou que quando o etanol custa 70% do valor da gasolina, já não é negócio produzi-lo. Expressou que o Brasil, ao dispor do maior bosque do planeta, reduzirá progressivamente o desflorestamento em 80%

Hoje, possui a maior tecnologia do mundo para perfurar o mar e pode extrair combustível situado a uma profundidade de sete mil metros de água e fundo marinho. Há 30 anos isso soaria a ficção científica.

Explicou os programas educacionais de alto nível que o Brasil se propõe a levar adiante. Valoriza o papel da China na esfera mundial. Declarou com orgulho que o intercâmbio comercial com esse país se eleva a 40 bilhões de dólares.

Uma coisa é indiscutível: o operário metalúrgico converteu-se atualmente em um estadista destacado e prestigiado, cuja voz é escutada com respeito em todas as reuniões internacionais.

Está orgulhoso por ter recebido a honra dos Jogos Olímpicos a ser realizados no Brasil em 2016, em virtude do excelente programa apresentado na Dinamarca. Também será sede do Mundial de Futebol, em 2014. Tudo isso foi fruto dos projetos apresentados pelo Brasil, que superaram os de seus competidores.

Uma grande prova de seu desprendimento foi a renúncia à reeleição, e confia que o Partido dos Trabalhadores continuará governando o Brasil.

Alguns invejosos de seu prestígio e de sua glória, e, pior ainda, os que estão a serviço do império, o criticaram por visitar Cuba. Utilizaram para isso calúnias vitais que há meio século são usadas contra Cuba.

Lula sabe que há muitos anos em nosso país jamais ninguém foi torturado; jamais se ordenou o assassinato de um adversário; jamais se mentiu para o povo. Tem a segurança de que a verdade é companheira inseparável de seus amigos cubanos.

De Cuba partiu rumo a nosso vizinho Haiti. A ele informamos nossas ideias sobre o que propomos com relação a um programa sustentável, eficiente, especialmente importante e muito econômico para o Haiti. Ele sabe que mais de cem mil haitianos foram atendidos por nossos médicos e pelos graduados na Escola Latinoamericana de medicina de Cuba após o terremoto. Falamos de coisas sérias; conheço seus ardentes desejos de ajudar a esse nobre e sofrido povo.

Guardarei uma inabalável recordação de meu último encontro com o Presidente do Brasil e não vacilo em proclamá-lo.

1º de Março de 2010
12:15 horas.


Tradução: ADITAL

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