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O Sexo não é só um Y

O caso da corredora Caster Semenya, mostra a dificuldade de definição de gênero em alguns casos.

Publicada: 25/08/2009 - 15h46m|Fonte: Alessandra Rosa - Redação|Versão para impressão|

  • Caster Semenya no Mundial de Berlim
  • Caster Semenya no Mundial de Berlim
    Foto: El País
Os cromossomos ou genes não definem a identidade sexual de uma pessoa - O caso da corredora sul-africana Caster Semenya, mostra a dificuldade de definição de gênero em casos especiais.

Em 1980, uma bala perdida durante um assalto em Cleveland matou Stella Walsh, que estava passando. A autópsia revelou que, ainda que vivesse como uma mulher, Stella tinha genitália masculina.

Em 1932, porém, ninguém duvidava de sua feminilidade quando, ao competir com a equipe polaca, Walsh (Stanilaswa Walasiewicz) se tornou a primeira mulher a marcar 12 segundos para vencer os 100 metros nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, muito menos em Berlim de 1936, quando ela ganhou a prata. Ninguém tinha dúvidas e ela nunca foi submetida a um exame de sexo. Evitou-se assim, a humilhação pública e os traumas subsequentes.

Ela não sofreu o que sofreu a índia Santhi Soundarajan, que perdeu sua medalha dos 800 metros nos Jogos Asiáticos de 2006, ao ser comprovado posteriormente que ela era realmente um homem. Sua primeira reação foi uma tentativa de suicídio.

No entanto, o tratamento diferenciado conduz inevitavelmente à discriminação, e por isso, e porque se verificou que nem tudo está no eixo Y, e, ainda porque se provou que ter um cromossomo masculino não indica nenhuma vantagem na competição, que em 1999, o Comitê Olímpico Internacional (COI) suspendeu os controles de sexo. "Era completamente humilhante e desnecessário o exame físico" , explica Arne Ljungqvist, presidente da Comissão Médica do COI, "até mesmo porque durante o exame de doping se obriga os atletas a tirar completamente suas roupas, para se certificar de que a urina procede realmente de seu ureter. Evidentemente, um homem disfarçado de mulher não passaria na prova. E, as análises nunca são completas, sempre são injustas com atletas com alguma anomalia genética ou que pertencem ao chamado gênero intersexual". Caster Semenya, a adolescente Sul Africana (de 18 anos), em torno de quem a polêmica está armada, passou, efetivamente, por exames antidoping, em Berlim.

Essa idéia é a chave de um artigo publicado na semana passada na revista Nature, por ocasião do caso de Semenya. Ela reflete a opinião do especialista em distúrbios do crescimento da Universidade de Yale Myron Genel. Para a maioria das pessoas, a norma é que a mulher tem dois cromossomos X, no par 23, e um homem tem um par XY. Mas os cientistas insistem em que "pode haver indivíduos com dois cromossomos X que desenvolvem características masculinas, e outros com um X e um Y, que nunca as tenham." Além disso, para complicar ainda mais o meio de campo, indicam que há também pessoas que são XXY.

E se, em vez de análise de cromossomos são medidos os níveis de hormônios também não se tem uma clara diferenciação. "Algumas pessoas XX tem condições médicas em que os níveis de hormônios androgênos [de masculinização, tais como a testosterona] são elevados, o que pode levar a características tais como o aumento da massa muscular", diz a revista. "Enquanto outros não se desenvolvem como homens XY, porque eles têm uma síndrome de insensibilidade androgênica", o que significa que não respondem a sua própria testosterona.


A história dos Jogos Olímpicos é repleta de erros e sofrimentos humanos das pessoas de sexo biológico pouco claros, como objetos mórbidos, para a curiosidade pública, mas talvez nem tão dolorosa quanto a da República Checa, Zdenka Koubkova, recordista mundial nos 800 metros de distância, uma hermafrodita que não conseguiu passar em um exame ginecológico, em 1934. Ela foi proibida de competir com as mulheres, mas a maior humilhação sofreu quando as fotos de sua anomalia apareceram ilustrando um livro de medicina. Criada como uma menina, desde pequena, começou a viver como um homem, tornando-se Zdenek Koubek.

Independentemente do resultado dos testes em Semenya, o argumento de identidade, que prevalece atualmente na hora de tratar de situações onde há discussão, do sexo de uma pessoa (seja considerado como ele é ou se sente) não convence a todos. Especialmente aqueles que são derrotados em uma grande competição. A italiana Elisa Cusma da Itália, que terminou em sexto na corrida, ganha pela sul-africana, se manifestou: "Sim, é mulher, ou se sente mulher, porém eu sigo acreditando que fui vencida por um homem". Também a espanhola Mayte Martínez, que ficou em sétimo lugar nesta corrida, entrou na polêmica dizendo: "Se colocarem a Semenya e 10 homens na frente eu não saberia dizer que ela é a mulher".

Por isso, por uma fronteira biológica não é, em geral, nada fácil, e o argumento das vantagens inatas é extremamente perigoso.

"Nós não discriminamos as mulheres muito altas [quem são assim, porque eles têm uma determinada configuração genética] e dizemos que não podem competir, porque eles são assim. Nem discriminamos os corredores que têm uma elevada prevalência de fibras rápidas", disse Genel.

Este último é o caso dos corredores negros, por exemplo, que, segundo os estudos possuem uma vantagem genética sobre os brancos, todavia, cogita-se fazer competições diferenciadas.

Qual a solução? Para Genel, esta claro: "Se elas nasceram e cresceram como mulheres e pensam em si mesmas como mulheres, eu diria que elas devem ser autorizadas a competir como mulheres."

Por Carlos Arribas/ Emilio de Benito - El País - Artigo traduzido por Alessandra Rosa.

Comentários dos leitores

Confira abaixo os comentários realizados pelos nossos leitores.

  • Comentário

    01

  • Poramanda silva (cabo frio - RJ)28/08/2009 - 16h25m

    ela é mulher eu acho q ela nunca viu o ou a

 
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