Sábado, 17 de Agosto de 2013

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O futuro incerto dos jornais

Os jornais impressos, como os conhecemos, tendem a acabar num prazo de 20 anos.

Publicada: 18/04/2009 - 15h55m|Fonte: Luciano Martins Costa |Versão para impressão|

O jornalista Ethevaldo Siqueira, decano dos especialistas em telecomunicações e mídia digital na imprensa brasileira, tem afirmado que os jornais impressos, como os conhecemos, tendem a acabar num prazo de 20 anos. Na sua opinião, o problema da perda de leitores está na manutenção do conceito de veículo de notícias, observando que as pessoas que buscam informações não recorrem mais aos jornais para tomar conhecimento de resultados de eleições e outros fatos que são noticiados imediatamente pelo rádio, televisão e internet.

Além disso, ele lembra que a rejeição dos jovens ao jornalismo de papel já é uma tendência consolidada, o que apaga grandes massas de leitores do futuro imediato da imprensa tradicional.

Ethevaldo Siqueira publicou em 2004 o livro 2015, Como Viveremos, analisando o impacto das tecnologias da informação e da comunicação na vida humana, com base nos trabalhos de 50 cientistas e futurologistas, e muito do que está ali escrito já se tornou realidade.

Estratégias conservadoras

Ethevaldo é colunista do Estado de S.Paulo e comentarista da rádio CBN e tem outros livros publicados, entre eles A Revolução Digital. Ele estudou também o desempenho dos jornais nos últimos 20 anos e o cenário atual, e conclui que a saída é transformá-los em publicações específicas para públicos segmentados.

Essa tese já foi especulada até mesmo pelo New York Times e indica que, num futuro próximo, os jornais impressos terão tiragens menores e serão dirigidos a uma elite de leitores, com material menos informativo e mais analítico.

As recentes declarações de Ethevaldo se encaixam no panorama que aflige os dirigentes de jornais no Brasil. Embora os números de faturamento não sejam desastrosos, mesmo num cenário de crise, o fato é que o negócio jornal se encontra diante de desafios que exigem mudanças importantes na estratégia das empresas.

Acontece que as empresas de comunicação são conduzidas por estratégias muito conservadoras e seus dirigentes não são exatamente do tipo inovador. Esse é o detalhe que coloca os jornais de papel fora dos cenários futuristas para o setor de comunicação.

Lixo impresso

Os grupos de comunicação que dominam múltiplos meios, como o Globo e o grupo RBS, do Rio Grande do Sul, têm melhores perspectivas. Além disso, outras empresas estão investindo em jornais voltados para a nova classe média, os chamados jornais populares. Mas uma observação cuidadosa revela que, também nessa vertente, a imprensa começa a repetir os velhos vícios que a fizeram perder leitores nos seus títulos principais.

Uma análise dos principais títulos criados ou renovados para dar mais fôlego às empresas jornalísticas mostra que a escolha dos editores repete antigas crenças segundo as quais o público dos jornais considerados menos "nobres" gosta de cores berrantes, títulos escandalosos e, quase sempre, de notícias sanguinolentas.

O blog Brasil Cruel, que rastreia notícias de violência na imprensa brasileira, dá um bom retrato do gosto duvidoso que a chamada "imprensa popular" produzida pela "imprensa de elite" oferece ao seu público.

Receita indigesta

Na edição de sexta-feira (17/4), a Folha de S.Paulo reproduz notícia dando conta de que os três principais jornais do Pará foram proibidos pelo Tribunal de Justiça de publicar imagens de vítimas de acidentes e de mortes brutais.

É claro que a Associação Nacional de Jornais condenou a decisão, afirmando que ela "viola frontalmente o espírito e a letra da liberdade de expressão assegurada pela Constituição". Mas basta uma olhada nos arquivos de imagens dos jornais O Liberal, Diário do Pará e Amazônia para entender as razões dos magistrados. Ali se encontram, regularmente, imagens escrachadas de pessoas mortas em acidentes ou assassinadas, inclusive de menores de idade. O modelo é o mesmo que "consagrou" o extinto Notícias Populares.

Nos seus piores momentos, quando era dirigido por uma socióloga, o jornal "popular" então editado pelo Grupo Folha costumava provocar manifestações de familiares de vítimas de crimes, que se postavam à porta da Folha para protestar contra a publicação de fotografias desonrosas de seus mortos.

Se depender da receita desse lixo impresso, a imprensa vai mal, muito mal.

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