Sábado, 29 de Março de 2014

Página Inicial>Mundo

O eixo do Brasil

Visita ao Irã faz parte da política externa multilateral que ele acredita ser condizente com a importância crescente da sua nação em um mundo em mudança de eixo

Publicada: 18/05/2010 - 22h42m|Fonte: Guia Global|Versão para impressão|

  • Lula centro, ajudou a intermediar um acordo de troca de combustível nuclear com o Irão e Turquia
  • Lula centro, ajudou a intermediar um acordo de troca de combustível nuclear com o Irão e Turquia
    Foto: EPA
A recente visita de Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, ao Irã faz parte de uma ampla política externa multilateral que ele acredita ser condizente com a importância crescente da sua nação em um mundo em mudança de eixo.

O Brasil sob o reinado de oito anos de Lula promoveu o comércio entre a América Latina, apoiou as negociações entre Israel e o Hamas com a criação de um Estado palestino. Tem resistido a pressão dos EUA que apela a sanções contra o Irã sobre seu programa nuclear, programa que Washington acredita ter intenções nefastas, enquanto no domingo intermediou um acordo em que Teerã se compromete a fazer uma troca de urânio pouco enriquecido por combustível nuclear.

As relações diplomáticas foram criadas com mais de 40 nações, incluindo a Coréia do Norte, mantém boas relações entre países divergentes, por exemplo, com os inimigos Venezuela e Colômbia.

Como a Índia, o Brasil está advogando para um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e quer a reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI) para melhor representar as nações em desenvolvimento.

Porque, como disse Lula em entrevista à Al Jazeera nesta semana, a geopolítica internacional está mudando e a governança global precisa mudar com ela.

"Nós queremos que o mundo seja representado no Conselho de Segurança da ONU," disse Lula, que viajou para mais de 80 países durante a sua presidência.

"Não importa se é um ou três da África ou da América Latina. Queremos abrir o clube e permitir que outros países possam entrar.

"Você pode imaginar que se tivéssemos dois ou três países como membros permanentes que não tivessem bombas nucleares, seria muito mais fácil negociar os acordos de não proliferação."


Jogador do mundo emergente

Os enormes setores agrícolas e minerais do Brasil juntamente com estabilidade econômica conquistada pelo governo Lula, que desde 2001 quase triplicou o seu produto interno bruto nacional (PIB), tem permitido o seu aparecimento como um player mundial.

Ela passou de uma nação que em menos de uma década atrás era dependente de empréstimos internacionais, para se tornar um dos principais doadores mundiais - na semana passada se tornou o primeiro país a contribuir para o fundo de reconstrução do Haiti pós-terremoto.

É membro do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), grupo de nações - a única economia em desenvolvimento, com um PIB de mais de US $ 1 trilhão por ano e de acordo com o banco de investimento, Goldman Sachs, tem previsão de 45 por cento de crescimento econômico a nível mundial desde que a crise financeira começou em 2007.

Os Brics - que têm grandes mercados internos e, juntos, reservas cambiais de seis vezes o tamanho do FMI - já defendeu a mudança do dólar como principal moeda de reserva global.
Este grupo, juntamente com o IBAS (Índia, Brasil e África do Sul), da Unasul (União das Nações Sul-americanas), e Aspa (Cúpula América do Sul-Países Árabes), elevou o perfil do Brasil em assuntos mundiais e é aparentemente uma ajuda para um mundo mais multipolar.

"Nós fomos muito dependentes da UE e dos EUA e eu pensei que, devido ao potencial que o Brasil tem, temos de diversificar e não ser dependente de ninguém", disse Lula, que vai deixar o cargo em outubro deste ano.

"Nós devemos ter boas relações com todos. E hoje a América Latina é nosso principal parceiro. Hoje, a China é o nosso principal parceiro individual. Atualmente na África, temos o equilíbrio dos fluxos comerciais acima de $ 20 bilhões."

Atração gravitacional

Sílio Boccanera, correspondente em Londres do Brasil para a Globo News, disse que o movimento em casa, tem produzido uma cisão entre os adeptos que acreditam que é uma progressão natural de uma potência emergente e detratores que acreditam que uma maior fidelidade deve ser afirmada com os aliados tradicionais - e ricos.

Ele disse que a recente missão ao Irã era visto com muito ceticismo como uma tentativa de influenciar a posição global e que para Lula é ilegítima a afirmação que o governo iraniano está construindo uma arma nuclear.

De acordo com Boccanera o multilateralismo não só é bom para o Brasil, mas "inevitável" e entre os possíveis sucessores de Lula "o objetivo deste trabalho de ter uma voz mais forte no mundo dos negócios é" generalizada.

O nacionalismo está novamente em ascensão.

"Este não é o fim da história é mais uma aceleração da história e da direção da aceleração do eixo ou o centro de gravidade da política mundial se deslocando do Atlântico Norte, a leste e ao sul", comenta Mathais Spektor, diretor para as relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro, referindo-se a uma teoria propagada após o fim da Guerra Fria sobre a coalescência dos estados.

Esta força gravitacional pode ser inclinada em direção à China - que responde por quase metade do PIB anual do Bric - mas as forças mútuas de diferentes nações trazem benefícios múltiplos.
No caso das relações do Irã com nações como o Brasil tem o objetivo de abafar o poder dos EUA de acordo com Hady Amr, diretor do Instituto Brookings, em Qatar, que pesquisas questões geopolíticas.

"Para o Irã a motivação seria a de que qualquer coisa que aumente os papéis de outros países na política global reduz o papel dos EUA na política global.
"Durante muitos anos era apenas os EUA e a União Soviética e depois foram só os EUA. Então, a partir da perspectiva do Irã, se há cinco ou dez outros países, agora é o momento de começar a empurrá-los e dar-lhes visibilidade é melhor para eles."



Partilha da administração global


O envolvimento do Brasil pode ser improvável para evitar sanções contra o Irã, mas transmite a sua projeção internacional. Ele conseguiu fazer isso, mantendo boa, mas relativamente distante, as relações com os EUA.

Nancy Soderberg, ex-embaixador dos EUA à ONU e conselheiro adjunto de Segurança Nacional, disse que ao mesmo tempo em que os EUA e Brasil têm "grandes divergências" Eles ainda estão empenhados em encontrar um terreno comum e podem manter uma "parceria forte".

Se ou quando a política externa do Brasil receber um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU será mais opaca.

Expansão do Conselho de Segurança foi modificada significativamente, em 2005. Em seguida, uma proposta para incluir Brasil, Índia, Japão e Alemanha - na época as nações chamadas G4 - sem poder de veto foi impedida por divergências sobre Africanos e lugares do Oriente Médio.

"Lula está certo quando diz que a atual estrutura da ONU está desatualizada. Reflete um mundo de décadas atrás. É bem mais do que tempo para uma expansão de assentos permanentes do Conselho de Segurança da ONU, incluindo um brasileiro", disse Soderberg.

"O presidente Obama já elevou o status do G20 e os EUA e Brasil devem trabalhar juntos para ajudar a moldar uma arquitetura global - políticas e econômicas - que reflete as realidades de hoje, do século 21."

A emergencial para o G20 poder transmitir uma maior influência à incorporação de um grande número de nações no mundo para participar de tomada de decisão. Retrata também abertura dos EUA "para a repartição do ônus da gestão global.

Informações também surgiram no mês passado de que Barack Obama propôs que se as negociações indiretas de paz entre israelenses e palestinos falhassem, uma conferência global sobre a resolução do conflito seria realizada.

Os grupos, tais como Bric e Ibsa ter sido o cenário de, por vezes, incoerente conversa ao invés de ação e permanecem dúvidas sobre sua eficácia devido a conflito de interesses estratégicos. Mas se a estrutura da ONU permanece fechada podem começar a assumir uma responsabilidade cada vez maior de questões globais.

Para o Brasil, como os seus laços econômicos proliferam assim também fazem os seus interesses nacionais. Por exemplo, uma guerra entre Israel e Irã faz pouca diferença para as suas exportações de carne para esses países.

"Isso não depende do tamanho da economia de um país. Depende exclusivamente sobre a importância estratégica de cada país em seus respectivos continentes. E o Brasil é um país muito importante."


Tradução e adaptação:
Narciso Tenório - Guia Global

Publicado originalmente na Al Jazeera.

Comentários dos leitores

Confira abaixo os comentários realizados pelos nossos leitores.

  • Comentário

    01

  • Por (Tijucas - SC)19/05/2010 - 02h19m

 
Siha nos no Twitter

Recomendações Facebook