Sábado, 29 de Março de 2014

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O debate da política externa: os progressistas

Não é possível conceber uma política externa progressista e inovadora que não questione e enfrente os consensos éticos e estratégicos das potências ...

Publicada: 28/01/2010 - 12h19m|Fonte: José Luís Fiori - Carta Maior|Versão para impressão|

AMas, afinal de contas, professor, o que é ser conservador em matéria de política externa? E o que viria a ser uma política externa não conservadora?”
J.S.: Leitor do Valor Econômico

As grandes utopias do século XIX revolucionaram as idéias e os objetivos da política internacional, logo no início do século XX. Mas, nas décadas seguintes, seu impacto sobre a política externa das grandes potências, foi bem menor do que as expectativas criadas, num primeiro momento, pelas propostas do presidente americano, Woodrow Wilson, na Conferência de Paz de Paris, depois da 1º Guerra Mundial: cosmopolitas, anti-colonialistas e favoráveis a um sistema mundial de segurança, liderado pela Liga das Nações. E pelas idéias e propostas, quase simultâneas, de Vladimir Lênin, já na condição de chefe do estado russo: internacionalistas, anti-imperialistas e favoráveis à paz e à auto-determinação dos povos.

Um programa convergente, em muitos pontos, e absolutamente inovador, que se transformou na bandeira de luta das duas grandes potências, contra o velho sistema europeu de equilíbrio de poder, e contra o liberalismo colonialista, liderado pela Inglaterra e pela França. Mas depois da morte de Wilson e de Lênin, já nos governos de Warren Harding e Joseph Stalin, os Estados Unidos e a União Soviética adotaram políticas externas orientadas por seus interesses nacionais e pelos seus objetivos internos imediatos, na contramão do discurso de seus antigos governantes.

E depois da 2º Guerra Mundial, e da constituição do “duopólio” que geriu o status quo internacional durante a Guerra Fria, entre 1946 e 1991, as idéias libertárias e internacionalistas do início do século, se transformaram num instrumento ideológico esclerosado, na competição entre as duas grandes potências. Mas apesar disto, estas idéias se difundiram pelo mundo junto com a expansão progressiva do poder americano e soviético, e acabaram se transformando no senso comum pouco inovador, do discurso oficial de todas as lideranças políticas mundiais, e de todos os organismos multilaterais criados depois da guerra.

Por fim, depois da vitória americana, e do fim da Guerra Fria e da União Soviética, em 1991, a velha utopia liberal-democrática se transformou na linguagem imperial do poder vitorioso, válida urbe et orbi. Como se tivesse se estabelecido – por um passe de mágica - uma coincidência absoluta entre os interesses dos Estados Unidos e os interesses do resto da humanidade, e entre as posições dos países que desejam manter, e dos que desejam mudar o atual status quo mundial.

Esta história do século XX, também diz respeito à América Latina, e deixa uma lição importante, para o debate atual, sobre o futuro da política externa brasileira. Os Estados Unidos e a União Soviética sempre tiveram sua própria teoria e sua própria história das relações internacionais, e foram inovadores enquanto lutaram contra a ordem internacional liderada pelo Poder Britânico. E é isto, em última instância, que define a fronteira entre uma política externa conservadora, e uma política progressista. O ponto de partida é simples: um estado e um governo que se proponham expandir o seu poder internacional, inevitavelmente terão que questionar e lutar contra a distribuição prévia do poder, dentro do próprio sistema.

Como condição preliminar, eles terão que ter sua própria teoria e sua própria leitura dos fatos, dos conflitos, e das assimetrias e disputas globais, e de cada um dos “tabuleiros” geopolíticos regionais ao redor do mundo. Para poder estabelecer de forma sustentada e autônoma, os seus próprios objetivos estratégicos, diferentes das potências dominantes, e conseqüentes com sua intenção de mudar a distribuição do poder e da hierarquia mundial. Por isso, não é possível conceber uma política externa progressista e inovadora que não questione e enfrente os consensos éticos e estratégicos das potências que controlam o núcleo central do poder mundial.

Neste campo, não estão excluídas as convergências e as alianças táticas, e temporárias, com uma ou várias das antigas potências dominantes. Mas toda política externa progressista e inovadora, sabe que está e estará em permanente competição com estas potências, e que terá que assumir as suas divergências, com a visão de mundo, com os diagnósticos e com as estratégias defendidas por elas, seja no espaço regional, seja a escala global. Isto não é uma veleidade irrelevante, nem é o fruto de uma animosidade ideológica, é uma conseqüência de uma “lei” essencial do sistema inter-estatal, e de uma determinação que é em grande medida geográfica, porque o objetivo do “estado questionador”, é ampliar sempre e cada vez mais, a sua capacidade de decisão e iniciativa estratégica autônoma, no campo político, econômico e militar, para poder difundir melhor e aumentar a eficácia de suas idéias e propostas de mudança do sistema mundial.

Do lado oposto, fica mais fácil de definir e identificar as características essenciais de uma política externa conservadora. Em primeiro lugar, os conservadores não se propõem mudar a distribuição do poder internacional, nem questionam a hierarquia do sistema mundial. Sua reação frente aos desafios colocados pela agenda internacional, é quase sempre empírica, isolada, e moralista. Os conservadores não têm uma teoria nem uma visão histórica própria do sistema internacional e dos seus acontecimentos conjunturais, e são partidários, em geral, de uma política externa de baixo teor, sem grandes iniciativas estratégicas nacionais, e com uma alta taxa de submissão aos valores, juízos, e decisões estratégicas das potencias dominantes. Por isto, consciente ou inconscientemente, os conservadores delegam a terceiros, uma parte da soberania decisória de sua política externa, e acabam assumindo, invariavelmente, uma posição subalterna dentro da política internacional.

Como foi o caso, na década de 1990, da política externa do Brasil, e dos demais países da América do Sul. Uma década que passou para a história, sob o signo neoliberal da “diplomacia descalça”, do governo brasileiro da época, e da proposta argentina de estabelecer “relações carnais”, com os Estados Unidos.

José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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