Quinta-Feira, 29 de Setembro de 2011

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Net nasceu livre há 40 anos

Embora a Internet esteja mais amplamente disponível e mais rápida do que nunca, barreiras artificiais ameaçam restringir o seu crescimento.

Publicada: 02/09/2009 - 17h08m|Fonte: Expresso|Versão para impressão|0 comentário(s)

  • O pioneiro Leonard Kleinrock, considerado um dos
  • O pioneiro Leonard Kleinrock, considerado um dos "pais" da Internet, junto do seu Interface para o P
    Foto: Expresso
Vídeos idiotas não estariam certamente no pensamento de Leonard Kleinrock e da sua equipa da Universidade da Califónia em Los Angeles, Estados Unidos (UCLA) quando há 40 anos começaram a fazer testes para aquilo que viria ser a Internet. E também não estariam seguramente as redes sociais nem a maioria das aplicações de fácil utilização que atraem mais de milhões de pessoas online.

O que os investigadores procuravam era criar uma rede aberta para uma livre troca de informações, uma abertura que acabou por estimular a inovação que mais tarde geraria coisas como o YouTube, o Facebook e a World Wide Web.

Hoje continua a ter muito espaço para a inovação, contudo a progressão da abertura pode estar se esgotando.
Embora a Internet esteja mais amplamente disponível e mais rápida do que nunca, barreiras artificiais ameaçam restringir o seu crescimento.

Pode-se chamar de uma crise da meia-idade. Como causa, uma série de fatores. Os ataques de spam (mensagens não solicitadas) e a pirataria obrigam os operadores das redes a construir sistemas de segurança. Os regimes autoritários bloqueiam o acesso a muitos sites e serviços dentro das suas fronteiras.

E questões de ordem comercial geram políticas que podem desencorajar rivais, particularmente em serviços móveis como o iPhone.

"Há mais liberdade para o típico utilizador da Internet jogar, comunicar, fazer compras - mais oportunidades do que nunca antes", diz Jonathan Zittrain, professor de Direito e co-fundador do Berkman Center for Internet & Society de Harvard. "Entre aquilo que pode nos preocupar, há tendências de mais longo prazo que estão tornando-se muito mais possível (para a informação) ser controlada".

Em 2 de Setembro de 1969, poucos deram atenção quando 20 pessoas se juntaram no laboratório de Kleinrock, na UCLA, para observarem dois volumosos computadores transferindo dados através de um cabo cinzento de 4,5 metros.

Foi assim o começo da incipiente rede Arpanet.
O Research Institute de Stanford juntou-se ao projeto um mês depois, a Universidade da Califónia em Santa Barbara e a Universidade do Utah no fim desse ano.

A década de 1970 trouxe o e-mail e os protocolos de comunicações TCP/IP, que permitiram que se conectassem múltiplas redes para formarem a Internet.

A década de 80 viu nascer um sistema de endereçamento com sufixos como ".com" e ".org", hoje largamente utilizados.

Web ressuscita Internet

Contudo, a Internet só se tornou uma palavra comum na década de 90, depois de um físico britânico, Tim Berners-Lee, ter inventado a Web, um subsistema da Internet que torna mais fácil ligar recursos entre diversas localizações.

Entretanto, fornecedores de serviços como a America Online ligaram pela primeira vez milhões de pessoas.

Esse anonimato inicial ajudou a Internet a desabrochar, livre de constrangimentos administrativos ou comerciais que podiam desencorajar ou mesmo proibir as experiências.

"Durante a maior parte da história da Internet, ninguém ouviu falar dela", diz Zittrain. "Isso deu-lhe tempo para se pôr à prova funcionalmente e mesmo para lançar raízes".

Até o governo dos Estados Unidos, que financiou grande parte do desenvolvimento inicial da Internet como um projeto militar, o deixou em paz durante largo tempo, permitindo que os seus engenheiros promovessem o seu ideal de uma rede aberta.

Quando Berners-Lee, que trabalhava no Centro Europeu de Investigação Nuclear, em Genebra, Suíça, inventou a Web em 1990, pôde disponibilizá-la para o mundo sem ter de pedir autorização ou de enfrentar os sistemas de segurança que hoje tratam como suspeitos certos tipos de tráfego da Internet.

Mesmo o fluxo livre de pornografia levou a inovações nos sistemas de pagamento por cartão de crédito na Internet, no vídeo online e em outras tecnologias utilizadas por todas as pessoas.

"Permitam esse acesso aberto e um milhão de flores desabrocharão", disse Kleinrock, professor na UCLA desde 1963. "Uma coisa sobre a Internet que podemos prever é que iremos ficar surpreendidos por aplicações que não esperávamos".

Lutas pelo domínio da Net

Esse idealismo está desaparecendo. Uma disputa em curso entre a Google e a Apple reforça essa barreira. Tal como outros dispositivos móveis que se ligam à Internet, o iPhone limita o software que pode ser utilizadonele. Só aplicações aprovadas pela Apple são autorizadas. A Apple bloqueou recentemente a aplicação de comunicações Google Voice, dizendo que anula a interface integrada do iPhone. Contudo, os céticos sugerem que essa medida limita os serviços de telefone potencialmente competitivos da Google.

Nos computadores de trabalho, alguns fornecedores de acesso à Internet levantaram barreiras para impedir serviços de partilha de ficheiros.

A norte-americana Comcast, por exemplo, foi repreendida pela Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos no ano passado por bloquear ou atrasar algumas formas de partilha de arquivos. Acabou por concordar e desistir desse procedimento.

O caso deu início a numerosos apelos ao governo para que fosse exigida a "neutralidade da net", o que na essência significa que um fornecedor de acessos não pode privilegiar certas formas de circulação de informação em relação a outras. Mas isso não seria uma nova regra mas sim um regresso aos princípios que guiaram a rede que Kleinrock e os seus colegas começaram a construir há 40 anos.

Limites inadmissíveis

Mesmo que os fornecedores de serviços não interfiram ativamente na circulação de informação, podem desencorajar o uso da Internet sem restrições por parte dos seus clientes através de quotas máximas mensais de transferência de dados.

Alguns fornecedores de acessos estão a experimentar baixar drasticamente os limites para ver online alguns filmes com qualidade DVD.

"É assim menos provável que se queira experimentar coisas novas", diz Vincent Cerf, que juntamente com Bob Khan desenvolveu o protocolo TCP/IP, o suporte da rede. "Ninguém quer receber no fim do mês uma fatura inesperada".
Dave Farber, antigo técnico chefe da Comissão de Comunicações Federal dos EUA, disse que os sistemas são muito mais poderosos quando tanto os programadores como os consumidores poderem experimentar coisas novas.

Farber desbloqueou um iPhone mais velho utilizando uma técnica de anulação da garantia conhecida como "jail-breaking", permitindo que o telefone utilize software que a Apple não aprovou. Ao fazê-lo, conseguiu ver um vídeo antes da Apple o suportar na versão mais recente do iPhone, e modificou a apresentação de tela quando o aparelho estava inativo para lhe dar um resumo da agenda e dos e-mails.

Quando a Apple insiste que as suas revisões são necessárias para proteger as crianças e a privacidade dos consumidores e evitar a degradação do desempenho do telefone, outros fornecedores de tentam manter o tipo de abertura existente nos sistemas livres. O sistema Android da Google, por exemplo, permite que qualquer pessoa escreva e distribua software sem autorização.

Contudo, mesmo nos computadores, outras barreiras estão surgindo.

Steve Crocker, pioneiro da Internet que agora chefia a Shinkuro, uma jovem empresa muito promissora, diz que a sua empresa teve grandes dificuldades na construção de tecnologias que ajude as pessoas de diferentes empresas a colaborar por causa dos sistemas de segurança, que existem por todo o lado na Internet.

Recorde-se que os sistemas de segurança são concebidos para bloquear ligações suspeitas, tornando difícil, se não impossível, a interação direta entre utilizadores.

Claro que ninguém está a dizendo que sejam removidas todas as barreiras. Os sistemas de segurança e os filtros de spam tornaram-se cruciais à medida que a Internet crescia e atraía comportamentos maliciosos, tal como os semáforos tiveram de ser colocados com o aumento do trânsito nas estradas. Remover essas barreiras podia criar problemas ainda maiores.

E muitas barreiras ao longo da história acabaram sendo derrubadas - muitas vezes sob pressão. Alguns anos atrás, a América Online (AOL), o maior fornecedor de acesso à Internet nos EUA, ficou tristemente famosa por desencorajar os utilizares a aventurarem-se fora do seu canal de assinante fechado para explorar a Web. A empresa abriu gradualmente as portas quando os seus assinantes começaram a queixar-se e a fugir. Atualmente, a empresa está reconstruindo a sua atividade com base na Internet aberta.

O que os mais destacados técnicos da Internet estão tentando evitar são todas as barreiras que forem tão opressivas que esmaguem ideias emergentes antes destas poderem se firmar.

Já há provas de controles nos locais de trabalho e de fornecedores de serviços que atrasam o processo de partilha de informação e as ferramentas de colaboração.

O vídeo pode ser o próximo se os clientes renunciarem a clips mais longos e de melhor qualidade com receio de incorrer em pagamentos extra de largura de banda. Do mesmo modo, as jovens empresas promissoras poderão nunca vir a ter oportunidade de chegar aos utilizadores se os gerenciadores de conteúdo não os permitirem.

Se as barreiras impedirem que estas inovações cheguem às mãos dos consumidores, podemos nunca chegar a saber que outras coisas vamos perdendo ao longo do caminho.

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