Quinta-Feira, 10 de Outubro de 2013

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"Não há clima para represálias entre Brasil e Argentina"

O governo brasileiro buscou baixar definitivamente o tom de confronto comercial com a Argentina, gerado a partir de supostas restrições a alimentos brasileiros

Publicada: 29/05/2010 - 09h36m|Fonte: Página 12|Versão para impressão|

  • Marco Aurelio Garcia, assessor para Assuntos Internacionais da Presidência da República do Brasil.
  • Marco Aurelio Garcia, assessor para Assuntos Internacionais da Presidência da República do Brasil.
O governo brasileiro buscou baixar definitivamente o tom de confronto comercial com a Argentina, gerado a partir de supostas restrições ao ingresso de alimentos importados do Brasil. “Não há clima para represálias. A disputa entre Brasil e Argentina só tem consistência no futebol”, brincou Marco Aurelio Garcia, assessor para Assuntos Internacionais da Presidência da República do Brasil.


Marco Aurélio Garcia procurou deixar de lado as especulações em torno da possibilidade de o Brasil responder com medidas protecionistas contra as exportações argentinas. A presidenta Cristina Fernández participa do III Foro da Aliança das Civilizações, que acontece no Rio de Janeiro. A respeito de alguma reunião particular com Lula, Marco Aurélio assinalou que “caso se encontrem, abordarão o assunto, mas não há nenhum ânimo de represália”.

Nos últimos dias, altos funcionários do governo Lula da Silva aludiram a possibilidade de “adotar represálias”, mas só em caso de que se efetivasse ou confirmasse a existência de restrições por parte das autoridades argentinas a produtos brasileiros. Inclusive, os dois funcionários que se referiram ao tema na quarta-feira útlima se referiram ao tema – Miguel Jorge, ministro de Desenvolvimento e Welber Barral, secretário de Comércio Exterior – observaram que essa informação só havia chegado dos “meios de imprensa argentinos”, mas eles não tinham denúncias a respeito.

Contudo, a poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo foi informada de que numerosas operações de venda de alimentos a Argentina tinham sido canceladas nos últimos dias por seus importadores, dado o temor de que não pudessem passar pela fronteira. Ricardo Martins, diretor executivo da Fiesp, assegurou que “70% dos embarques previstos” não tinham conseguido se concretizar.

A suposta medida em defesa da produção nacional despertou reclamações dos importadores argentinos e pedidos de cautela aos empresários. Héctor Méndez, presidente da Unión Industrial Argentina, assinalou que “há que se ser criterioso, buscar caminhos de equilíbrio, sem ter que se mover de modo exacerbado; tem de resolver os problemas”. Sustentou que “eles se protegem – o Brasil -, e nós nos protegemos, mas isso não tem de ter um perfil de confronto, mas de negócios”.

A aparente restrição às importações de alimentos se atribuiu a uma ordem não escrita do secretário de Comércio, Guillermo Moreno, que tinha manifestado verbalmente a intenção de aplicar a medida a partir de 1º junho próximo. Esta comunicação teria provocado a anulação de operações de importação por parte de grandes cadeias de supermercados, o que motivou a queixa dos empresários de São Paulo. Nas primeiras semanas de maio houve, além disso, certas dificuldades para o ingresso de alimentos no país vizinho (Brasil), por conta de barreiras aparentemente sanitárias, mas esses trâmites foram se flexibilizando nos dias seguintes até alcançarem um nível de aparente normalidade, segundo admitem os mesmos setores importadores do lado argentino.

No dia 26 de maio, Marco Aurélio Garcia enfatizou o aspecto da boa sintonia política entre ambos os governos sobre a disputa comercial. Depois dos festejos do Bicentenário, com Lula da Silva como convidado, e logo em seguida a visita ao Rio de Janeiro da presidenta Cristina Fernández, para o III Foro da Aliança das Civilizações, os brasileiros preferiram baixar o tom do conflito. “Não há clima para represálias. A peleia entre Brasil e Argentina só tem consistência no futebol”, brincou Marco Aurélio. Ele indicou que a reunião em Buenos Aires entre os dois mandatários foi “calorosa” e assegurou que “se amanhã tiverem um novo encontro, abordarão o assunto – o conflito comercial -, mas sem nenhum ânimo de represália”.

“O problema foi uma medida de um funcionário de segundo escalão, que podemos resolver tranquilamente pela via da negociação”, agregou o assessor de Lula, fazendo referência à suposta comunicação verbal de Moreno. “Países que têm uma relação como a Argentina e o Brasil dificilmente vão entrar em crise por conta dessa situação. Não há preocupação alguma, isso não vai afetar as relações”, concluiu.

Até agora, a aplicação da medida não é algo que esteja constatado e houve poucas queixas concretas dos vizinhos. O governo brasileiro teve reuniões em embaixadas, mas admite que por ora se trata majoritariamente de “rumores e malentendidos”. Além disso, negam que as dificuldades de alguns caminhões na fronteira signifiquem que a barreira está em vigor. Por outro lado, importadores locais indicam que pelos rumores algumas compras ao Brasil foram canceladas. Jorge Rodríguez Aparicio, titular da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira, disse que “não temos nenhuma norma, mas os comentários já tiveram repercussão porque ninguém vai comprar produtos se depois, na aduana, sua entrada for restringida”.

A ministra da Indústria, Débora Giorgi, também procurou minimizar o conflito. “Não há nenhuma representação formal realizada pelo Brasil sobre restrições à entrada de alimentos e tampouco temos evidência da existência de caminhões brasileiros impedidos de cruzar a fronteira”, indicou. Por sua vez, o chefe de Gabinete, Aníbal Fernández, assegurou que o conflito “não é um tema grave”. Com mais precisão, a ministra do Interior, Florência Randazzo, disse que “de maneira alguma vamos nos distanciar do Brasil. Há sim uma disputa de interesses, porque nosso governo defende a indústria nacional”.

O governo brasileiro se debate enter o lobby dos poderosos empresários de São Paulo e a preservação de sua aliança regional e da relação comercial com seus sócios do Mercosul. Num momento de campanha política, em que o principal candidato da oposição, José Serra, focou seu ataque no questionamento ao bloco regional, o governo do Brasil parece ter resolvido sair rapidamente da linha cruzada da pressão midiática.

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