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Na linha de frente de uma nova Guerra do Pacífico

Conforme a China e os EUA dão forma a uma nova corrida armamentista, as nações menores da região do Pacífico e da Ásia são pressionadas a escolherem seus lados.

Publicada: 19/12/2012 - 08h16m|Fonte: Koohan Paik e Jerry Mander - The Nation|Versão para impressão|

  • Em Okinawa, 100 mil foram às ruas mais de uma vez, fartos com a presença militar dos EUA
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Conforme a China e os EUA dão forma a uma nova corrida armamentista, as nações menores da região do Pacífico e da Ásia são pressionadas a escolherem seus lados.

A população da ilha de Jeju, território sul-coreano, desde 2007 combate o processo de militarização de sua terra natal que faz parte da “Guinada para o Pacífico”, iniciativa anunciada ao final de 2011 pelo presidente Obama para “enfrentar” a ascensão chinesa.

Na pequena e espetacular ilha de Jeju, próxima ao sul coreano, camponeses nativos obstaculizam com os próprios corpos a construção de uma base naval de propriedade norte-americana e sul-coreana que seria um desastre político, cultural e ambiental. Se completa, a base contaria com mais de 7 mil funcionários da marinha, vinte navios de guerra, porta-aviões para as aeronaves norte-americanas, submarinos nucleares e destroieres portando os novos mísseis Aegis – todos apontados para a China, a 480 quilômetros de lá.

Desde 2007, quando o projeto de 970 milhões de dólares foi anunciado, o povo Tamna, das comunidades de Gangieong, exerceu todo esforço legal e pacífico para impedi-lo. Eles entraram com ações judiciais, realizaram um referendo em que 94% do eleitorado rejeitou a construção, acorrentaram-se por meses a um contêiner estacionado na maior rodovia da ilha, construíram bloqueios com pedras nos portões do canteiro de obras, ocuparam guindastes de dragagem de recifes de coral e foram presos às centenas. O prefeito Kang Dong-Kyun, que permaneceu encarcerado por três meses, certa vez disse o seguinte: “se os camponeses cometeram algum crime, foi o de desejar legar a seus descendentes a beleza de sua aldeia”.

Jeju é só uma ilha na crescente constelação de pontos geoestratégicos em processo de militarização da “Guinada para o Pacífico”, iniciativa anunciada ao final de 2011 pelo presidente Obama para “enfrentar” a ascensão chinesa. De acordo com pronunciamentos da secretária de Estado Hillary Clinton e do secretário de Defesa Leon Panetta, 60% dos recursos militares estadunidenses estão sendo transferidos do Oriente Médio e da Europa para a região da Ásia e do Pacífico (os Estados Unidos têm 219 bases militares nessa região, enquanto a China não tem nenhuma). A base de Jeju ampliaria os sistemas equipados com mísseis Aegis da Coréia do Sul, Japão, Filipinas, Singapura, Vietnam e da colônia norte-americana de Guão.

O Pentágono também posicionou os sistemas de defesa com mísseis Patriot Pac-3 em Taiwan, Japão (onde há mais de noventa instalações, além das 47 mil tropas em Okinawa) e na própria Coréia do Sul (que hospeda mais de 100 instalações norte-americanas).

Ainda, o governo norte-americano começou a posicionar tropas na Austrália e tornou públicos seus planos de construir uma base para aviões não tripulados, “drones”, nas remotas Ilhas Keeling (a deslumbrante Ilha Palawan nas Filipinas e as Ilhas Marianas Setentrionais, riquíssimas em recursos naturais, também são visadas, para mencionar um pedaço de uma lista enorme). Em uma das viagens para fortalecer a lista de aliados na região, Leon Panetta revelou a intenção de posicionar tropas na Nova Zelândia, apesar de não haver consentimento para isso. Obama fez sua própria viagem pouco depois da reeleição, e cortejou Mianmar, Camboja e Tailândia como potenciais parceiros comerciais e aliados militares no cerco à China. Até com os militares da Indonésia, conhecidos por sua brutalidade, os Estados Unidos retomaram as conversas que haviam sido interrompidas em virtude do desrespeito aos direitos humanos praticados no território do talvez principal parceiro comercial da China.

Robert Willard, presidente do Comando Norte-americano no Pacífico (Uspacom, pela sigla em inglês), contextualizou essas manobras em setembro último. Num discurso no Conselho de Relações Internacionais, ele intitulou toda a região da Ásia e do Pacífico, que contém 52% da Terra e dois terços da população mundial, como “bens” a serem “protegidos” pelos Estados Unidos. Normalmente, a palavra “bens” refere-se a recursos comuns controlados por partes contíguas. Mas Willard parecia ter em mente uma rede gigantesca de bens estadunidenses que se estende por quase 13 mil quilômetros para além da costa oeste.

A retórica imperialista de Willard concretizou-se quando o Uspacom reagiu às disputas entre China e Japão pelas ilhas do geopoliticamente vital Mar da China Oriental. De sua sede no Havaí, Willard deu início a exercícios militares que envolviam 37 mil tropas japonesas e 10 mil norte-americanas. Em outubro, o Uspacom enviou um grupo de ataque de aeronaves da Marinha à capital das Filipinas para demonstrar força na disputa pelas Ilhas Spratly.

Pouco sabido é que as atividades do Comando Norte-americano no Pacífico compreendem a supervisão das forças armadas sul-coreanas. Essa condição remonta ao Tratado de Defesa Mútua, vigente desde 1953. De fato, a hegemonia estadunidense sobre a região permaneceu inalterada por mais de meio século. A base lógica do “império de bases militares” uma vez foi a contenção do comunismo. A “guinada para o Pacífico” de Obama é uma atualização turbinada da política internacional norte-americana na Guerra Fria, mas dessa vez visa-se conter a China nos planos econômico, político e militar.

A resposta chinesa é a produção acelerada de armamentos, incluindo novos porta-aviões, o cortejo de aliados na região - especialmente os países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) e a Rússia – e o controle mais austero das rotas de navegação do Mar da China Meridional.

Conforme esses dois monstros dão forma a uma nova corrida armamentista, as nações mais diminutas são pressionadas a escolherem seus lados. Como disse um ativista, “quando elefantes lutam, são esmagadas as formigas”.


Impactos Locais

Na ilha de Jeju, as consequências da estratégia norte-americana são cataclísmicas. A Reserva de Biosfera da Unesco, adjacente ao porto militar, seria atravessada por porta-aviões e contaminada por vários tipos de navios militares. As atividades da base aniquilariam uma das mais espetaculares florestas de corais moles do planeta, matariam os últimos golfinhos-nariz-de-garrafa-do-índico e contaminariam parte da mais pura e abundante água mineral de que atualmente usufruímos. Também, a base significa a destruição do habitat natural de milhares de espécies de plantas e animais. Os meios de vida sustentáveis dos nativos cessariam de existir, e muitos temem que a tradição dos viventes da região seria sacrificada em troca de bares, restaurantes e bordeis para os militares.

Os aldeões de Gangjeong também se preocupam com a possibilidade do século XX se repetir, pela transformação de sua pequena vila num alvo militar como aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra da Coréia. Os manifestantes da base nunca mais querem se encontrar em fogo cruzado.

A luta dos dissidentes têm sido difícil. Sul-coreanos não conformados com o governo são rapidamente denominados “pró-Coréia do Norte”, postos na lista negra e não raramente encarcerados. Em Gangjeong, embora a violência policial seja corriqueira, os dissidentes continuaram lutando de maneira ininterrupta por cinco anos. E o fizeram apesar de que a absoluta maioria de seus esforços não tenham sido reportadas pela altamente controlada imprensa coreana e uma relapsa mídia norte-americana – relapsa, pelo menos, até setembro passado.

Uma ruptura miraculosa se apresentou quando a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN na sigla inglesa) – a maior organização pelo meio ambiente do mundo, que dedica-se a “um planeta justo que valorize e conserva a natureza” – anunciou seu Congresso Mundial de Conservação para Jeju, a apenas 7 quilômetros de onde ocorriam os confrontos entre a polícia e os manifestantes anti-base.

Os camponeses alegraram-se pela oportunidade de contar suas histórias para os líderes ambientes do mundo. Entretanto, eles se escandalizaram ao descobrir que os líderes da IUCN planejavam ignorar a catástrofe.

Descobriu-se que havia um acordo entre os mandatários da organização e o governo sul-coreano. O governo apoiara a convenção com 21 milhões de dólares. Em contrapartida, a IUCN aceitou não permitir discussões sobre a base naval sem consentimento do governo, muito menos se nelas tomassem parte algum dos aldeões dissidentes. Corporações como a Samsung, principal contratante da construção da base, ofereceram apoio financeiro. Somente quando uma revolta dos próprios membros da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais surgiu na internet que o acordo dúbio foi posto em cheque e a luta contra a base militar tornou-se internacional.

Aparentemente, pintar a base naval de verde não foi a única razão pela qual o governo coreano foi tão doce na recepção do Congresso de Jeju. Também pretendia-se promover uma lista de projetos compreendida sob a alcunha “Crescimento Verde”. O termo é aflitivo de tão impróprio. Iniciativas devastadoras e lucrativas como a da base naval estão sendo dirigidas pela chaebol coreana (monopólios pertencentes a famílias riquíssimas como Samsung, Hyundai e LG, interessadas em construções, defesa e eletrônicos, entre outros produtos).

Os mais recentes projetos de Crescimento Verde incluem manufatura, promoção e exportação de “energia nuclear limpa”. O mais notório dos elefantes brancos realizados sob esse pretexto foi o Projeto de Restauração dos Quatro Grandes Rios, que não era, de modo algum, um projeto de restauração. Ele envolvia a construção de canais de concreto que punham os tortuosos rios coreanos em ordem para navegação comercial. O projeto removeu agricultores, causou enchentes, contaminou a água mineral e fez desaparecer aves migratórias. Na Convenção de Ramsar deste ano, o projeto esteve presente na lista dos cinco piores projetos para áreas pantanosas do planeta.

Após tanto desastre e em face da crescente controvérsia a respeito da base naval, a elite sul-coreana precisava do Congresso de Jeju para abrandar o desapontamento de parte dos cidadãos. Não funcionou.

A revolta da IUCN

Ao se darem conta do que ocorria, os membros da IUCN ficaram horrorizados. Eles se impressionaram com a franqueza do compromisso estabelecido entre a organização e a República da Coréia. Essa perplexidade, no entanto, não se justificava. Quatro anos antes, em Barcelona, lideranças da IUCN fecharam parceria com a Shell. E o escrete de palestrantes do último Congresso era revelador: enquanto não havia moradores de Gangjeong, o presidente da Shell, Marvin Odum, falou como uma autoridade em mudanças climáticas. Noutro painel, o CEO da Syngenta, empresa produtora de transgênicos, discursava sobre agricultura sustentável.

Os membros descontentes da IUCN logo solidarizaram-se ao Comitê de Ações de Jeju, grupo de ativistas anti-base e pró-Gangjeong que conta com adeptos da pujança de Vandana Shiva, Noam Chomsky, Robert Redford, Gloria Steinem, Victoria Tauli-Corpuz, Joseph Gerson, Christine Ahn e dúzias de cientistas e ambientalistas proeminentes. Durante a Convenção, o Comitê enviou uma série de e-mails para os filiados e promoveu encontros com os moradores de Gangjeong.

Enquanto isso, participantes da conferência diplomavam-se nos procedimentos de emergência sul-coreanos: equipes da Swat perambulavam pelo prédio, coreanos eram revistados à procura de literatura anti-base e quatro moças foram expulsas do prédio por vestirem camisas com dizeres contra a construção da base. Quando a ativista Sung-Hee Choi foi vista entrando no centro de convenções, vinte policiais vieram tomar seu crachá e negar sua entrada, pela qual ela havia pagado 600 dólares. Um membro da IUCN disse nunca ter ido a um Congresso daquele tipo, no qual “o Ministro da Defesa presenciava cada reunião, pressionando qualquer opinião contrária”.

A resposta recrudesceu quando a Solidariedade Popular por Democracia Participativa, uma organização não-governamental de Seoul, disseminou um relatório do Ministério da Defesa indicando que navios regularmente passariam pela Reserva de Biosfera da Unesco, condenando qualquer espécie de vida da área. O capitão Yoon Seok-Han, chefe de construção da base naval, prometera numa coletiva de imprensa que nenhum navio atravessaria a reserva, a não ser em casos de tempo ruim, coisa comum na região.

Membros da IUCN começaram a denunciar o “pacto com o diabo” firmado por seus representantes. Os secretários recuaram para atenuar a brecha que rapidamente materializava-se entre suas próprias fileiras e a organização, então, passou a encorajar manifestações anti-base e permitir panfletagem no interior do centro de convenções. Os camponeses de Gangjeong descobriram-se no centro das atenções e apoderaram-se da situação para vender camisetas e promover um show com centenas de espectadores. Jovens aldeões fantasiaram-se de espécies em extinção segurando placas em que se lia “me permita viver!”. E, dessa vez, quem ficou horrorizado foram os patrocinadores sul-coreanos.

No quinto dia de conferência, oficiais do governo viam seu investimento exorbitante virar-se contra eles próprios. Uma ong de Chicago, o Centro pelos Humanos e pela Natureza, apresentou uma moção emergencial para barrar a construção da base. Em dois dias, 34 outras ongs assinaram a
moção.

Ao final, a moção recebeu imensa maioria dos votos dos membros da IUCN, embora ela não tenha sido aprovada em virtude da peculiar lógica pela qual a organização conta seus votos. A mídia coreana, então, obedientemente reportou a prevalência da “base naval eco-amiga” e do “crescimento verde”. Para a população de Gangjeong, a votação não teve muita importância. Na luta por reconhecimento, a “Batalha de Jeju” foi uma vitória tremenda. As consequências da guinada norte-americana para o Pacífico foram evidenciadas e desde então, como disse um camponês no último dia da convenção, “não estávamos mais sozinhos”.

Imediatamente após a convenção, centenas de camponeses, juntamente com líderes religiosos, realizaram uma marcha em direção a Seoul que durou um mês e acumulou apoiadores no caminho. Ao chegarem na capital, havia cinco mil deles - e a mídia sul-coreana não disse palavra. De volta a Jeju, os dissidentes notaram que o governo acelerara a construção e a luta se intensificou. As eleições presidenciais de hoje, 19, são cruciais. Os ativistas acreditam que se o candidato de centro-esquerda, Moon Jae-In, vencer o candidato conservador, Park Geun-Hye, a situação da base naval pode ser revista.


Nova Resistência: Moana Nui

Conforme avança a “Guinada para o Pacífico”, a resistência de movimentos locais como o de Jeju ergue-se prontamente. Em Okinawa, por exemplo, 100 mil foram às ruas mais de uma vez, fartos com a presença militar estadunidense que elenca estupros e violência aos cidadãos locais em seu currículo. Nas Filipinas, protestos contra a presença militar e o despejo de lixo tóxico tornam-se cada dia mais recorrentes e maciços. A população das pequenas ilhas onde os norte-americanos testam seus mísseis, especialmente os nativos das Ilhas Marshall e da Melanésia, organizaram-se de maneira similar. Na ilha japonesa de Yonaguni, distante 100 quilômetros de Taiwan, os EUA desejam estabelecer mais uma base no cerco à China. Lá, também há resposta organizada da população.

Temos, pois, algo realmente novo desenvolvendo-se: os outrora isolados povos da Ásia e do Pacífico estão unificando-se em frentes cada vez maiores de auxílio mútuo.

Há quatorze meses, quando dezenove estadistas (Obama incluso) encontraram-se em Honolulu para firmar os acordos comerciais da Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (Apec), militantes antimilitarização, antiglobalização, ambientalistas e ativistas pelos direitos de povos nativos da região encontraram-se para o primeiro Moana Nui (polinésio para “grande oceano”). A cúpula durou três dias e foi concluída com um grande protesto do lado de fora de onde realizavam-se as negociações da Apec. Moana Nui foi largamente noticiado no Pacífico, nos Estados Unidos não. A próxima cúpula está marcada para a próxima primavera, em São Francisco, e seu principal objetivo é despertar o povo norte-americano para o que está em jogo no Pacífico.

Enfim, a questão é a seguinte: em tempos de crise econômica e ecológica, os norte-americanos realmente pretendem acelerar custosos programas típicos da Guerra Fria em centenas de lugares a milhares de quilômetros de distância, quase sempre contra a vontade dos nativos e com efeitos ambientais terríveis? Se não, é hora de os Estados Unidos conversarem sobre sua guinada para o Pacífico.

(*) Koohan Paik é o diretor do programa para a Ásia e o Pacífico do Fórum Internacional de Globalização (IFG). Jerry Mander é fundador e Membro Honorário do IFG.

Tradução: André Cristi.
Publicado em www.cartamaior.com.br

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