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Malvinas, uma prova de fogo para a América do Sul

"É necessário comerçarmos a lutar para que o secretário-geral da ONU reabra esse debate com muita força". disse Lula

Publicada: 09/03/2010 - 09h15m|Fonte: Opera Mundi|Versão para impressão|

  • Mulher visita cemitério de Darwin, nas Ilhas Malvinas, onde estão enterrados soldado argentinos
  • Mulher visita cemitério de Darwin, nas Ilhas Malvinas, onde estão enterrados soldado argentinos
    Foto: Sergio Quinteros/EFE
Com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa, em 1º de dezembro de 2009, o Reino Unido conseguiu tornar nossas Ilhas Malvinas parte da "região ultraperiférica da União Europeia", prevista no anexo II daquele acordo. Assim, os 27 membros da UE tornaram-se cúmplices e garantes da usurpação britânica das Malvinas. O Reino Unido conseguiu, desta forma, europeizar a ocupação do arquipélago.

Por consequência lógica, a única estratégia possível para a Argentina, a partir daquele momento, consiste em "latino-americanizar" e "sul-americanizar" o tema das Malvinas, para que as repúblicas da América Latina se tornem protagonistas ativas no processo de recuperação da soberania argentina sobre as ilhas do Atlântico Sul.

São mais que alentadoras, nesse sentido, as palavras pronunciadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que afirmou, em tom categórico: "Não é possível que a Argentina não se aproprie das Malvinas e que isso seja feito por um país que está a 14 mil quilômetros de distância das ilhas. Qual é a razão geográfica, política e econômica pela qual a Inglaterra está nas Malvinas? Qual é a explicação política das Nações Unidas para não tomarem uma decisão? É necessário comerçarmos a lutar para que o secretário-geral da ONU reabra esse debate com muita força".

O presidente do Brasil já vestiu a camisa argentina. Agora precisamos que ele entre no jogo.

No México, a Argentina certamente deu um passo importante para "latino-americanizar" a reivindicação sobre as Malvinas, fazendo com que todos os países irmãos da região condenassem a usurpação por parte do Reino Unido e sua tentativa de apropriar-se da riqueza petrolífera malvinense.

No entanto, é preciso passar imediatamente da solidariedade declarada à solidariedade efetiva. Passar das palavras aos atos. Para a Argentina, é imprescindível elevar os custos da ocupação britânica das Malvinas e dificultar todas as atividades econômicas que os britânicos decidam empreender no arquipélago ou em suas águas adjacentes. Este é o objetivo prático que deve guiar, como princípio absoluto de ação, a política argentina em relação às Malvinas.

Até agora, o Reino Unido desfrutou de um cômodo status quo. A Argentina deve baixar o tom das declarações e passar a falar com a contudência dos atos. É por isso que o país precisa do apoio efetivo de todas as repúblicas da América Latina, mas, fundamentalmente, de três: Brasil, Uruguai e Chile.

Cinco condições

É evidente que a Argentina não pode - dada a relação de forças - impedir a exploração petrolífera do arquipélago por parte do Reino Unido. Mas o pode, com a solidariedade efetiva e não só declarada do Brasil, Uruguai e Chile, torná-la muito difícil em termos técnicos e economicamente custosa. Nesse sentido, a Argentina precisa:

1) que Brasil, Uruguai e Chile concordem que toda embarcação que transitar entre portos brasileiros, uruguaios ou chilenos e as Malvinas ou cruzar suas respectivas águas territoriais rumo às Malvinas seja obrigada a solicitar uma autorização prévia a suas respectivas autoridades nacionais, autorização que deveria ser automaticamente negada no caso do transporte de qualquer material que, direta ou indiretamente, servisse à exploração petrolífera das Malvinas.

2) que o governo do Chile interrompa os voos semanais da empresa LAN para nossas ilhas Malvinas, até que se reverta a agressão unilateral britânica.

3) que Brasil, Uruguai e Chile tomem as medidas legais necessárias, em caráter de urgência, para que nenhuma empresa instalada em seus territórios participe de forma direta ou indireta da exploração petrolífera das Ilhas Malvinas.

4) que Brasil, Uruguai e Chile proíbam toda comunicação aérea entre seus respectivos territórios nacionais e as Ilhas Malvinas.

5) que todas as medidas tomadas pelo Brasil, Uruguai e Chile sejam também adotadas pela Unasul.

O caso das Malvinas é a grande oportunidade para que o Brasil demonstre o quanto valem suas palavras e para que o Chile apague a infâmia cometida pela ditadura militar de Augusto Pinochet, que, em plena Guerra das Malvinas (1982), forneceu apoio logístico às forças navais e aéreas britânicas - o que contribuiu para a morte de centenas de soldados argentinos. As Malvinas são a prova de fogo da Unasul.


Marcelo Gullo é mestre em Relações Internacionais, mestre em História e Política Internacionais, doutor em Ciência Política e professor da Universidade de Lanús, na Argentina. O artigo foi publicado originalmente no site do jornal lanacion.com

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