Ao afirmar que o Fórum Social Mundial, após uma década, “está mais maduro, mais calejado”, o Presidente Lula parecia estar falando de seu próprio governo. “O que um presidente sonhou a vida inteira e o que ele pode fazer é diferente”, completou Lula, dizendo que a advertência era destinada para quem o substituir e para cada um dos colegas latinoamericanos, especialmente a Pepe Mujica, recém eleito no Uruguai. Lula estava bem humorado e falou durante quase uma hora para as 7 mil pessoas presentes no Gigantinho, na noite de terça-feira.
Acompanhado pelo presidente da CUT, Artur Henrique da Silva Santos, pela uruguaia Lilian Celiberti, e pelo coordenador do Ibase, Cândido Grybowski, Lula falou sobre preconceito, Davos, Haiti e a recente Conferência do Clima, em Copenhague. Anunciado como um debate com os movimentos sociais, a fala de Lula foi, na verdade, um discurso aclamado por uma platéia com forte presença da Central Única dos Trabalhadores. O presidente afirmou que voltará a participar do Fórum Social Mundial em 2011, "mas desta vez como ex-presidente". Um pequeno suspiro foi a deixa para que metade do público cantasse "Olé, olé, olá, Dilma, Dilma" e a outra "Olé, olé, olá, Lula, Lula".
Lula se despediu de Porto Alegre para participar do Fórum Econômico em Davos, que, segundo ele, "não tem mais o glamour que eles pensavam ter". E completou: “Vou a Davos com o orgulho de quem tem o que dizer”. A ajuda humanitária no Haiti também foi tema do discurso, após Grybowski perguntar se o Brasil pretende evitar uma ocupação estadunidense permanente na área. "Os brasileiros ensinaram como se deve ser uma força de paz, sem sonegar os direitos humanitários. Não podemos esquecer que o Haiti foi o primeiro país negro a conquistar a independência em 1804. Talvez este terremoto mexa com a vergonha dos governantes para que se faça no país agora o que poderia ter sido feito há décadas", afirmou.
Ao explicar o resultado desastroso da Conferência do Clima, em Copenhague, Lula afirmou que o Brasil possuía a melhor proposta e está pronto para o debate no México, ainda este ano. "Não aceitamos mais que coloquem o dedo sujo de óleo diesel no combustível limpo produzido neste País", concluiu.
“O caminho da irreverência e da desobediência é o caminho da democracia”
As curtas falas dos participantes da mesa indicaram uma responsabilização tanto de todos que compõem o Fórum Social Mundial, quanto de Lula em relação a questões como democracia, clima, a luta contra a criminalização dos movimentos sociais e a favor das comissões de anistia na América Latina. Figurando em diversas mesas de debate em Porto Alegre, a uruguaia Lilian Celiberti emocionou uma platéia que aguardava ansiosa a fala presidencial desde as 17 horas da tarde em filas sob o sol ou num abafado Gigantinho. Lula falou apenas depois das 20 horas.
“O FSM é o povo da esperança, da luta e da alegria. Como vocês sabem, eu fui presa aqui em Porto Alegre e a luta do povo riograndense que tornou possível eu estar novamente aqui. Todos nós, latinoamericanos, nos emocionamos a ponto de chorar frente à televisão quando, pela primeira vez, um torneiro mecânico ingressou na banda presidencial. Também nos emocionamos quando um indígena chegou à presidência da Bolívia. Hoje, no Uruguai, um ex- guerrilheiro que passou anos em um poço para ser destruído pela ditadura se encontra na banda presidencial. Essa é a luta de todos nós e de muitos outros. É a subversão da ordem estabelecida que nos permite conquistar direitos”, disse Lilian.
Além de delegados do FSM, estiveram no evento os ministros - Dilma Rousseff (Casa Civil), Tarso Genro (Justiça), Luiz Dulci (Secretaria-Geral), Edson Santos (Igualdade Racial), Paulo Vanuchi (Direitos Humanos) e Altermir Gregolim (Pesca) -, o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça (PMDB), que foi vaiado ao ser anunciado, os senadores petistas Paulo Paim e Ideli Salvati, o governador da Bahia, Jacques Wagner, além de deputados, secretários e vereadores. A governadora Yeda Crusius não foi ao evento, mas recebeu a comitiva presidencial no desembarque, por volta das 19h, no aeroporto Salgado Filho.