O presidente da Ferroeste defende a construção da ferrovia pelas forças armadas.
O canteiro de obras da ponte ferroviária sobre o rio Paraná, entre Porto Meira, no município de Foz do Iguaçu, e Presidente Franco, no Paraguai, será inaugurado no primeiro semestre de 2010. A decisão integra o conjunto de medidas da declaração de intenções divulgada no final de semana pelos presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e Fernando Lugo, do Paraguai.
O acordo também contempla o início dos estudos para a construção do ramal da Ferroeste de Cascavel a Foz do Iguaçu, que vai se conectar depois, com a futura ferrovia do Paraguai em Ciudad del Este até Maria Auxiliadora, com posterior conexão à Argentina. A intenção é concluir os estudos nos primeiros meses de 2010. O trecho é parte integrante do corredor bioceânico Paranaguá-Antofagasta, sendo que a parte brasileira, entre Cascavel e Foz do Iguaçu, com 170 quilômetros, já conta com estudo ambiental e projeto final de engenharia da Ferroeste, que precisam apenas ser atualizados.
Para o presidente da Ferroeste, Samuel Gomes, o acordo binacional “é uma grande vitória”, porque, segundo ele, “faz avançar a integração sócio-econômica, política e cultural da América do Sul”. Em 29 de maio de 2008, foi realizada uma reunião em nível de governo no Palácio San Martin, em Buenos Aires, com a presença da Ferroeste, para implementar a decisão dos presidentes da Argentina-Brasil-Chile-Paraguai de construir o corredor bioceânico.
Em 5 de maio de 2009, Luis Federico Franco Gómez, então no exercício da presidência do Paraguai, recebeu o presidente da Ferroeste, Samuel Gomes, e o Grupo Propulsor de Integração de Projetos Ferroviários, formado por empresários daquele país, em Assunção, e anunciou a intenção do governo paraguaio discutir com o presidente Lula, no encontro de líderes, o projeto do ramal ferroviário.
As exportações do Paraguai através do Porto de Paranaguá vêm sendo reativadas por um grupo de cooperativas, empresas privadas e exportadores de pequeno e médio porte graças a um acordo firmado com a Ferroeste. O “Projeto Cascavel”, no porto seco instalado no terminal ferroviário, segundo Gomes, demonstra o empenho dos produtores no projeto de voltar a exportar pelo Brasil. Há dez anos o Porto de Paranaguá deixou de ser utilizado pelos exportadores paraguaios devido ao elevado custo do transporte rodoviário.
Sobre a chegada da ferrovia ao Paraguai, a presidenta da Central Nacional de Cooperativas do Paraguai (Unicoop), Simona Cavazzuti, lembrou que o grupo de empresários havia “pedido para o governo paraguaio colocar o tema na ordem do dia” da reunião entre Lugo e Lula. Para ela, a menção da ferrovia na carta de intenção dos presidentes era o que “estava faltando para um arranque” na parte política do projeto. “Nós do setor privado já estamos trabalhando”, declarou.
“Devemos gratidão aos produtores paraguaios, liderados pela Unicoop, pelo trabalho de convencimento político do governo Lugo quanto à importância da integração das linhas da Ferroeste, de Cascavel a Foz do Iguaçu, e da Fepasa (Ferrocarriles del Paraguay), ligando Presidente Franco a Pilar, na fronteira com a Argentina, em Resistência", disse Gomes. Ele lembrou que, dentro desse esforço, em 20 de maio, o governo de Alto Paraná, e os ministérios da Pecuária e do Comércio, do Paraguai, em conjunto com a Ferroeste, elaboraram a “Carta de Santa Rita” e que, em 7 de julho de 2009, foi divulgada, em conjunto por lideranças do eixo Cascavel-Foz do Iguaçu, Alto Paraná e Ferroeste, a “Carta de Foz do Iguaçu”, com a criação do “Grupo Impulsor” visando a integração ferroviária Brasil-Paraguai.
O documento assinado pelos presidentes Lula e Lugo, no sábado (25), em Assunción, reafirma a necessidade de “iniciar com brevidade” as obras da ponte sobre o rio Paraná com o objetivo de dinamizar a economia regional. A carta reconhece ainda a urgência da construção de um ramal ferroviário ligando Brasil e Paraguai. Os estudos de pré-viabilidade, no Paraguai, serão financiados pelo BNDES, em coordenação com a Ferrocarriles del Paraguay.
REGIÃO OESTE - “Acho que agora sai”, comemorou o prefeito de Foz do Iguaçu, Paulo Mac Donald, referindo-se ao ramal da Ferroeste. Para ele, o anúncio dos presidentes sobre a ligação ferroviária bioceânica é um “passo importantíssimo” de um projeto muito antigo. Mac Donald ressalta que o corredor trará muitas melhorias para a região, entre elas, a exportação da soja do Oeste do Estado via Pacífico. “Vai melhorar nosso comércio com os países da Ásia”. O prefeito também lembra que a ferrovia facilitará o abastecimento da agroindústria do Paraná e de Santa Catarina com insumos, soja e milho paraguaios, a custos mais vantajosos.
O empresário Mário Camargo, representante da Associação Comercial de Foz do Iguaçu (Acifi) no Grupo Impulsor do Projeto de Expansão do Trecho Cascavel-Foz do Iguaçu- Puerto Presidente Franco também comentou o anúncio: “era o que estávamos esperando”. Segundo ele, o projeto vai “alavancar a economia da região” com os frete mais baratos. “È bom para o Paraguai e bom para a indústria das regiões Oeste e Sudoeste do Paraná e Oeste de Santa Catarina”.
O empresário Arney Antônio Frassan, da cerealista AB AgroBrasil, considera que o fato de o projeto ferroviário internacional “constar nos protocolos do acordo já é uma vitória das lideranças do Oeste do Estado e do Paraguai empenhadas neste projeto”. Segundo ele, “agora é uma questão de todo mundo ficar mobilizado para viabilizar a obra”.
PORTO DE PARANAGUÁ - A construção do ramal da Ferroeste de Guarapuava ao Porto de Paranaguá é condição para a integração ferroviária com o Paraguai e a viabilidade do corredor bioceânico, adverte Samuel Gomes. O projeto só será possível se for resolvido o gargalo logístico que existe hoje na velha ferrovia entre Ponta Grossa e Guarapuava. “Para que o projeto seja implantado definitivamente a Ferroeste precisa chegar ao Porto de Paranaguá”, afirma Gomes. O projeto da estatal ferroviária tem o apoio de entidades técnicas como o Conselho de Engenharia (Crea-PR), o Sindicato dos Engenheiros (Senge) e o Instituto de Engenharia do Paraná (IEP). Lideranças políticas e econômicas do Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul também apóiam o projeto da Ferroeste.
Samuel Gomes considera que “a unidade entre os produtores paranaenses e paraguaios e os governos de Requião e Lugo identifica a gestão pública como modelo ideal de operação da ferrovia” que vai ligar o Paraguai ao Porto de Paranaguá. “Todos rejeitamos monopólio privado e exploração desabrida do esforço produtivo dos nossos produtores e dos nossos territórios por empresas financeirizadas voltadas exclusivamente à obtenção de lucros absurdos para enriquecer os seus acionistas”, declarou. “Todos queremos gestão pública das ferrovias e dos portos, para baixar os custos do transporte e assegurar acesso amplo às infraestruturas de transporte".
O modelo de construção e operação da ferrovia entre Cascavel e a fronteira do Paraguai com a Argentina, vem sendo discutido entre os agentes econômicos e políticos dos dois países. “Minha proposta, já apresentada aos produtores e ao governo do Paraguai, é constituir uma união entre a Ferroeste e a empresa ferroviária paraguaia, Fepasa”, informa Samuel Gomes. O empreendimento binacional terá cerca 600 quilômetros, segundo ele, quando se considera não apenas a ligação com Pilar e Resistência, mas também o ramal Maria Auxiliadora-Encarnación-Posadas. “Será uma ferrovia do Século 21 numa das regiões mais produtivas do planeta, ligando o Paraguai, a hidrovia do rio Paraguai, a hidrovia do rio Paraná e o Porto de Paranaguá”.
O presidente da Ferroeste defende a construção da ferrovia pelas forças armadas. “Sonho com a obra sendo construída por uma união entre o Exército brasileiro e o Exército paraguaio, o qual, com tal parceria, poderá criar batalhões ferroviários e partilhar tecnologia com a competente e experimentada engenharia militar brasileira”. Segundo Samuel, com essa parceria, “estaremos dando à obra um papel importante no estreitamento das relações entre as forças armadas da América do Sul.”
Na primeira semana de agosto, o vice-ministro de Comércio do Paraguai, Agustín Perdomo, virá ao Paraná para assinar carta de intenções de temas relacionados à sua pasta com o Governo do Estado, e já agendou uma reunião com o presidente da Ferroeste, em Curitiba, para avançar na discussão do projeto de expansão da ferrovia para o Paraguai.