Segunda-Feira, 01 de Julho de 2013

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Hugo Chávez e Venezuela: a hora da decisão chegou

Nicolas Maduro não está sozinho, no que diz respeito aos vizinhos e até mesmo aos Estados Unidos. O artigo é de Eric Nepomuceno.

Publicada: 17/01/2013 - 12h24m|Fonte: Carta Maior|Versão para impressão|

  • Hugo Chávez e Venezuela: a hora da decisão chegou
Chávez nomeou como seu sucessor um dirigente sindical, civil, de extração popular, que numa primeira etapa será o encarregado de levar adiante a difícil tarefa de conduzir uma revolução que até dezembro passado estava diretamente vinculada à figura de seu líder indiscutido. Uma jogada arriscada, talvez. Mas de todos os movimentos de Hugo Chávez, algum não foi arriscado? Nicolas Maduro não está sozinho, no que diz respeito aos vizinhos e até mesmo aos Estados Unidos. O artigo é de Eric Nepomuceno.
Eric Nepomuceno

De onde quer que se olhe, parece cada vez mais claro: dificilmente, muito dificilmente, Hugo Chávez tornará a assumir a presidência da Venezuela. Ainda que se recupere, é sabido que não terá condições de assumir a exaustiva tarefa de conduzir o dia a dia do processo instaurado por ele há mais de uma década.

Esse é o nó da questão: a enorme dificuldade, por todas as razões evidentes e também as não visíveis, de assumir publicamente esse vazio.

Formalmente, e é possível que também juridicamente, a solução encontrada – considerar oficialmente Chávez em licença de saúde, substituído interinamente pelo vice por ele nomeado, Nicolás Maduro – pode ser discutível. Politicamente, foi a saída natural, e aliás bem arquitetada. Resta saber por quanto tempo irá funcionar. Há limitações de ordem constitucional – Maduro, como presidente interino, não pode, por exemplo, nomear ministros ou mexer no orçamento nacional, nem firmar decretos – e prevalece, é claro, a concreta convicção de que, mais cedo ou mais tarde, será necessário convocar novas eleições.

O mistério é o que estará acontecendo até lá. Dá-se por certo, e não há razão para colocar essa certeza em dúvida, que, a menos que aconteça algo excepcional, nessas inevitáveis eleições presidenciais o candidato oficialista será eleito. Além de toda a comoção popular provocada pelo que acontece com Hugo Chávez, a oposição, que deveria estar unida, está dividida. A menos que, do lado oficialista, aconteça alguma ruptura interna grave e imprevista, o candidato será o próprio Nicolás Maduro.

Então, o que a Venezuela vive, flutuando em marés de incertezas e inquietações, é o processo de sucessão de Chávez de acordo, ao menos até agora, com a linha estabelecida por ele: levar adiante um processo contraditório, oscilante, com falhas graves mas, acima de tudo, que foi capaz de mudar, e para melhor, a face e a realidade de um país. Que deu cidadania a milhões de pessoas antes condenadas a serem nada.

Para isso, Chávez nomeou como seu sucessor um dirigente sindical, civil, de extração popular, que numa primeira etapa será o encarregado de levar adiante a difícil tarefa de conduzir uma revolução que até dezembro passado estava diretamente vinculada à figura de seu líder indiscutido.
Uma jogada arriscada, talvez. Mas de todos os movimentos de Hugo Chávez, algum não foi arriscado?

O laconismo, para usar uma expressão delicada, sobre o verdadeiro estado de saúde de Chávez é indicio palpável de que as coisas não andam exatamente bem. De longe, é meio complicado acreditar na carta escrita por ele pedindo que a cerimônia de posse de seu novo período presidencial fosse adiado, ou no decreto nomeando Elias Jaua, seu ex vice-presidente, para o posto de ministro de Relações Exteriores do governo interino de Nicolás Maduro, que até agora acumulava a vice presidência com o cargo de chanceler. Por quê ninguém viu esses decretos assinados?

É um balé diminuto, delicado, arriscado: Jaua foi vice-presidente, antecedendo Maduro. Era, com Diosdado Cabello, um postulante incisivo a sucessor natural de Chávez. Esse era o cenário: um militar que agora preside o Congresso, e um civil que foi vice-presidente, disputando o posto de delfim de uma revolução complexa. Cada um representando um setor da imensa variedade de tendências aglutinadas ao redor do líder indiscutível.

Cabello, o militar desenvolvimentista; Jaua, chamado pelos opositores mais furibundos de ‘talibã do chavismo’. Pois nessa disputa entre os dois, ganhou um terceiro, aliás também civil.

A grande dúvida agora, enfim, não é uma, são várias. Sem ter, nem de longe, o carisma de Chávez (aliás, ninguém tem), como Nicolás Maduro conseguirá manter mobilizada a população? Sem ter incidência direta sobre as Forças Armadas, que em última instância são o centro verdadeiro do poder real, como manter coesas as tendências diferentes?

Maduro conta, é verdade, com pleno apoio de Raúl Castro, e com o apoio também pleno, embora essencialmente simbólico, de Fidel.

Chávez, ao saber da gravidade de sua situação, conversou detalhadamente com os cubanos. Porque a estratégia para a Venezuela tem e terá, inevitavelmente, reflexos em toda a América Latina, para o bem e para o mal dos governos da região.

Tanto é assim, que vários mandatários estão mobilizados. Alguns, como o uruguaio José Mujica, o boliviano Evo Morales e o nicaraguense Daniel Ortega participaram da manifestação popular que mobilizou centenas de milhares de pessoas em Caracas, no dia em que Chávez deveria ter assumido seu novo mandato. Outros, como a argentina Cristina Kirchner e o peruano Ollanta Humala, foram a Havana, na vã tentativa – o que só confirma a impressão de que seu estado de saúde é efetivamente muito delicado – de uma visita formal, ainda que fugaz. A brasileira Dilma Rousseff enviou seu assessor especial para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, de trânsito plenamente livre entre os governos do continente, a Cuba, para se informar.

Nicolas Maduro não está sozinho, no que diz respeito aos vizinhos e até mesmo aos Estados Unidos. Há um diálogo constante, direto ou através de emissários, entre Caracas e o resto do continente.

Mas a verdade é que a hora da decisão chegou. Chávez continua num hospital cubano. Conta-se que, lá no hospital, ele manteve reuniões com ministros, baixou decretos, tomou decisões.

Pode ser que sim, pode ser que não. O que importa, porém, é outra coisa: como estão se entendendo, agora que a hora chegou, seus herdeiros? Como se dará a condução do chavismo sem Chávez? Quem poderá assegurar a continuidade da revolução bolivariana implantada por ele? Quem irá garantir as conquistas?

Isso é o que permanece na neblina. E a figura do comandante, ainda muito poderosa, parece um beija-flor escondido entre brumas.

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