Segunda-Feira, 27 de Outubro de 2014

Página Inicial>Política & Economia

Em entrevista com Dilma, Miriam defende espaço de bancos privados

Dilma é interrogada no Bom Dia, Brasil sobre críticas a programa de Marina que prevê BC independente e redução da presença dos bancos oficiais em políticas de crédito não atendidas pelo setor privado

Publicada: 23/09/2014 - 01h11m|Fonte: Helena Sthephanowitz - Rede Brasil Atual|Versão para impressão|

  • Miriam
  • Miriam "esclarece" que programa de Marina não fala em acabar com os bancos públicos, apenas em reduz
    Foto: REPRODUÇÃO BOM DIA BRASIL
O telejornal Bom Dia, Brasil, da TV Globo, iniciou uma série de entrevistas com os candidatos à presidência da República, demonstrando como a linha editorial da emissora ainda está presa ao pensamento econômico fracassado do fim do século passado, antes da crise econômica internacional iniciada em 2008.

A primeira entrevistada, por sorteio, foi Dilma Rousseff (PT), nesta segunda-feira (22). A entrevista seguiu o padrão de interrogatório que a TV Globo tem adotado, com os três jornalistas fazendo muitas perguntas simultâneas, sobre assuntos complexos, sem que houvesse tempo suficiente para responder, e com os entrevistadores interferindo na resposta o tempo todo. O formato prejudica o telespectador a receber informações úteis. Boas entrevistas não são feitas para ver quem entra no livro dos recordes de respostas mais rápidas, e sim para esclarecer assuntos do interesse do cidadão. Seria mais interessante o jornalismo da TV Globo gravar uma longa entrevista com cada candidato e levar ao ar uma parte da entrevista em cada dia, para não ficar na superficialidade.

Em uma das perguntas, a jornalista Miriam Leitão questionou críticas à proposta de Banco Central independente apresentada no programa de governo da candidata Marina Silva (PSB). Citou o caso do Banco Central da Inglaterra, tornado independente na gestão de Tony Blair, primeiro-ministro pelo Partido Trabalhista, sem que houvesse reações como há no Brasil, segundo a jornalista. Citou também o Chile, como exemplo de país que adotou o mesmo modelo.

A presidenta, disse que Banco Central independente, no caso do Brasil, seria "simplesmente colocar um quarto poder na Praça dos Três Poderes". Disse ainda que sem os bancos públicos e subsídios no Brasil não haveria programas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida, para a população de baixa renda; não haveria o financiamento da safra para a produção de alimentos, e não haveria desenvolvimentos industrial, pois sem o BNDES dispor de linhas de crédito com juros competitivos com o mercado externo, os investimentos industriais no Brasil sumiriam.

Nem precisa explicar que o resultado seria danoso ao desenvolvimento do país, sem produzir bens e serviços com maior valor agregado no caso da indústria, sem produzir alimentos em quantidade suficiente para o consumo interno e para exportar no caso da agricultura, e seria persistir no problema da favelização se não houver programa de habitação popular.

Voltando à pergunta de Leitão, o que ela não disse foi que a ideia de Banco Central independente foi muito defendida até o fim do século passado e perdeu muita força a partir da crise internacional de 2008, provocada pela quebra de bancos nos Estados Unidos, devido ao relaxamento na regulação do setor financeiro pelo estado.

Os exemplos dados por Leitão são todos no auge do neoliberalismo. No Chile, o Banco Central se tornou independente na ditadura do general Augusto Pinochet, quando o país andino se tornou laboratório do neoliberalismo que seria aplicado mais tarde em outros países do mundo. No Reino Unido, foi em 1997, quando a adesão de países da América Latina e do Leste Europeu ao neoliberalismo do Consenso de Washington favoreciam o enriquecimento dos países da Europa ocidental.

De lá para cá muita coisa mudou. Depois de a aplicação do Consenso de Washington arrasar as economias e empregos de países da América Latina, da Rússia, e de outras regiões do planeta, os países em desenvolvimento, em sua maioria, abandonaram as políticas neoliberais e passaram a fortalecer o papel do estado na economia com resultados positivos. As grandes economias em desenvolvimento, como China, Índia e Rússia não deram independência formal ao Banco Central. O Japão também não.

A partir da crise de 2008 nos Estados Unidos, os povos dos países ricos também passaram a pedir dos governos maior regulação do mercado, o que vai na contramão da ideia de Banco Central independente, autorregulado pelo próprio mercado que produziu a crise. Pelo menos dois estadunidenses vencedores do prêmio Nobel de economia, Joseph Stiglitz e Paul Krugman, são críticos da independência de bancos centrais.

Miriam Leitão demonstrou saudosismo da época do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em que o neoliberalismo atingiu seu auge e o Estados Unidos impunha ao Brasil o chamado Consenso de Washington. Mas logo em seguido o fracasso dessas políticas ficaram comprovados pela história. Suas ideias ficaram paradas no século passado. Miriam chegou, em certo momento, a deixar de lado sua função de entrevistadora para enveredar para a de debatedora, saindo em defesa de aspectos do programa de Marina apoiados pelo sistema bancário privado.

Quando Dilma contestou a redução do papel dos bancos públicos, e questionou quem financiaria obras de infraestrutura, projetos habitacionais e produção agrícola sem política de longo prazo, carências e juros subsidiados, Miriam interveio: “Ninguém está falando em acabar com os bancos, mas apenas (no fato de o setor público) ter uma participação maior...” Dilma insistiu: “Reduzir para quanto (a participação dos bancos públicos)? Eu reduzo pela metade o financiamento da agricultura? Reduzo à metade o financiamento da infraestrutura? Reduzo quanto do Minha Casa Minha Vida? Porque não pode ser assim... Não pode dizer "vou reduzir". E aí sou eu que estou colocando medo?”

Comentários dos leitores

Confira abaixo os comentários realizados pelos nossos leitores.

 
Siha nos no Twitter

Recomendações Facebook