Segunda-Feira, 27 de Outubro de 2014

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Dramaturgia de Marina emociona, mas não convence

Marina Silva começa a sentir na própria pele os limites do discurso melodramático onde apoiou seu crescimento desde a morte de Eduardo Campos.

Publicada: 22/09/2014 - 21h25m|Fonte: Carta Maior|Versão para impressão|

  • Marina Silva começa a sentir na própria pele os limites do discurso melodramático
  • Marina Silva começa a sentir na própria pele os limites do discurso melodramático
Marina Silva começa a sentir na própria pele os limites do discurso melodramático onde apoiou seu crescimento desde a morte de Eduardo Campos, perceptíveis nas pesquisas de opinião e no público. A presidenta Dilma Rousseff voltou a crescer na última pesquisa do Datafolha perto das eleições de 5 de outubro, fortalecida por um discurso direto, sem apelo emocional, sustentado em argumentos documentados, diante da narrativa oca de Marina Silva, apoiada de forma militante pela grande mídia.

A opção preferencial pelos bancos alardeada por Marina e confirmada por seus conselheiros como Eduardo Giannetti da Fonseca é rebatida por Dilma, que explica quais são os riscos econômicos e políticos de uma abdicação.

“Banco Central independente (proposto por Marina) é colocar um quarto poder na Praça dos Três Poderes. Aí vai chamar Praça dos Quatro Poderes... mas não é só isso, ela diz que vai reduzir o papel dos bancos públicos”, declarou a candidata à reeleição nesta segunda-feira (22), em entrevista ao programa Bom Dia Brasil.

A afirmação da candidata do PT não é um ataque à sua adversária, mas a posição de quem, durante quatro anos de mandato, reduziu os graus de autonomia do BC, apesar da hostilidade da “grande imprensa” e do rancor da BOVESPA, transformada no mais radical reduto oposicionista.

Respaldada pelos programas sociais aplicados durante os 12 anos de governo do PT, na semana passada, Dilma prometeu que se fosse reeleita o Bolsa Família continuará vigorando, mas colocou em dúvida que Marina o mantenha como é atualmente, atendendo 50 milhões de pessoas, devido aos compromissos assumidos pela oposição com setores que sempre a consideraram uma “política populista” e chamavam o programa de política da “bolsa esmola”.

“Faltam poucos dias para a eleição e, neste momento, o clima fica um pouco quente e nós sabemos que começa uma série de mentiras e boatos falsos por aí”, alertou Dilma.

Aí Marina entrou em cena com uma propaganda na televisão que mescla a estética das novelas mexicanas (piano de fundo acompanhando suas palavras) com a ascendente emotividade de um sermão evangélico.

A propaganda começa com um plano curto de Marina gritando: “Dilma, fique ciente, não vou lhe combater com as suas armas. (surge um piano no fundo)... Nós vamos manter o Bolsa Família. E sabe por quê? (Volta o piano) Porque eu nasci lá no Seringal Bagaço (AC). Eu sei o que é passar fome. Tudo o que minha mãe tinha para oito filhos era um ovo e um pouco de farinha e sal com umas palhinhas de cebola picada”.

Em seguida, o plano abre para mostrar Marina discursando diante de centenas de pessoas que a interrompem para aclamar seu nome, enquanto uma assistente, parada junto dela no palco, chora quando aparece o aviso de transmissão em cadeia nacional de tevê.

“Eu me lembro de ter olhado para o meu pai e minha mãe e perguntado "vocês não vão comer?".(pausa da candidata, com a voz embargada, que se recompõe e conclui), Quem viveu essa experiência jamais acabará com o Bolsa Família”. O que Marina conta é verdade. Nasceu e foi criada na miséria, seu pai vive atualmente na pobreza, trabalhou em seringais da Amazônia, onde contraiu uma doença séria, militou contra fazendeiros, decidiu ser freira e depois desistiu, aprendeu a escrever aos 16 anos e obteve título universitário aos 25.

Até sua candidatura está marcada pela tragédia, já que foi anunciada candidata poucos dias depois de o socialista Eduardo Campos falecer, em 13 de agosto, em um acidente aéreo. Imediatamente a Globo montou uma cobertura especial, com transmissão em tempo real de um funeral que foi, na verdade, plataforma de lançamento da dirigente ambientalista.

A retórica de Marina emociona porque sua vida é de novela, mas sua reformulação política se ampara em argumentos genéricos, ou em retratações quase cotidianas sobre qual será sua política petroleira, trabalhista, sobre anistia aos repressores da ditadura ou sobre LGBT.

Curiosamente sua postura teatral e a falta de precisão foram elogiadas recentemente pela revista semanal liberal The Economist, britânica, que desde 2013 teve a missão de liderar a campanha internacional contra a política econômica dilmista, pedindo a renúncia do ministro da Fazenda Guido Mantega.

Até hoje, a 13 dias das eleições, Marina não respondeu a Dilma quando ela pergunta como conciliará uma política econômico ortodoxa com a expansão dos programas sociais e das políticas de promoção de habitação popular, aumento do emprego e reajuste salarial acima da inflação, como acontece desde o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011).

Dilma, em contrapartida, não muda sua voz e seu estilo. Se fosse comparado a algum gênero televisivo, se aproximaria de um sóbrio programa de notícias.

“Eu não ataco a candidata Marina, eu apresento minhas divergências, isso é a democracia... porque acredito que a campanha deve ter um alto nível de debate”.

Faz uma semana que a contraposição de argumentos e estilos ressurgiu quando Marina falou de “atualizar” a legislação trabalhista”, como recomendou o professor Giannetti da Fonseca”, economista liberal que foi membro da FIESP e declara compartilhar o modelo aplicado nos anos 90 pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Dilma retrucou firmemente a sugestão de Marina, “eu não mudo os direitos que estão na legislação trabalhista nem que a vaca tussa... estou falando de férias, décimo terceiro, horas extras, fundo de garantia por tempo de serviço”.

Marina defende a terceirização usando os mesmos argumentos dos patrões. Vejam o que está escrito lá: “a terceirização leva a maior especialização produtiva, a maior divisão do trabalho e, consequentemente, a maior produtividade das empresas. Com isso, o próprio crescimento do setor de serviços seria um motor do crescimento do PIB per capita”, disse Vagner Freitas, presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores).

“No Brasil, nunca ouvimos ninguém falar em reformar a CLT para beneficiar os/as trabalhadores/as. FHC é um exemplo disso. Ele tinha um projeto de “atualização” da CLT que representava, de fato, a total desregulamentação do mercado de trabalho”, reforçou o dirigente sindical.

Estas podem ser possivelmente as eleições mais disputadas desde 1989, quando Fernando Collor de Mello, também praticando um discurso teatral (respaldado pelas novelas da Globo) venceu as primeiras presidenciais após a ditadura.

Com empate técnico entre as candidatas, nenhuma análise rigorosa está em condições de vaticinar quem vencerá nas urnas em 26 de outubro. Mas no duelo de estilos, Dilma fez valer o seu ao colocarem evidência os eufemismos de Marina com sua fuga para o melodrama.

O estilo de Dilma é uma estratégia de forma e de fundo: emprega frases diretas para politizar a disputa, enquanto sua adversária, defensora de uma “nova política” de contornos voláteis, refugia-se em consignas como “vou governar com os melhores, não importa de que partidos venham” ou “eu não proponho o embate, quero o debate”.

“A estratégia de vitimização teve efeito contrário... Agora ela terá de correr atrás do prejuízo”, com planos melhor fundamentados, observou Helio Gastaldi do instituto IBOPE.

Dilma, devido a seu discurso frontal, entre outros motivos, conta com uma alta rejeição, de 33%, mas seu eleitor é “mais fiel”, enquanto Marina tem rejeição de 22% e um “O voto dela é o mais volátil. É um voto do momento. Se a campanha tivesse uma duração maior, Marina teria mais a perder do que ganhar”, aposta o especialista, sem desconhecer que a ambientalista é a favorita para um segundo turno.


Texto original: Darío Pignotti, Página/12 (@DarioPignotti)
Tradução: Daniella Cambaúva

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