Direitos Humanos: Le Monde pergunta se o Brasil está disposto a assumir seu passado
O jornal Le Monde chama a atenção para a chamada "exceção brasileira" único pais submetido a uma ditadura na América Latina que não passou pelo ajuste de conta
Segundo o jornal francês, Le Monde, a memória dos "anos de chumbo" volta à cena política brasileira. A matéria do jornal trazia o seguinte título:
"No Brasil, a memória dos anos de chumbo volta à cena poltica."
Na reportagem o jornal analisa a crise atual entre o presidente Lula e as forças armadas, desencadeada pela criação da chamada Comissão Nacional da Verdade, autorizada por decreto presidencial no dia 21 de dezembro. A Comissão faz parte do 3° Programa Nacional de Direitos Humanos, que prevê cerca de 500 medidas diferentes áreas.
O objetivo da Comissão é esclarecer os crimes cometidos durante a ditadura militar. O texto, que utiliza o termo "expressão política", provocou uma tensão sem precedentes entre o executivo e os chefes das Forças Armadas. A tal ponto que, no fim do ano, o ministro da defesa Nelson Jobim e os chefes da Marinha, Exército e Aeronáutica, ameaçaram pedir demissão. Para os militares, existem brechas na lei que possibilitam uma revisão da Lei da Anistia, de 1979
O presidente deve mudar a versão original do texto. Uma das queixas dos militares é que as investigações não incluam apenas as supostas torturas militares, mas também os eventuais crimes cometidos pelos militantes de esquerda. "Lula tenta obter uma difícil arbitragem entre o exército e o ministro dos direitos humanos", lembra o ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo de Tarso Vannuchi, amigo de Lula há 30 anos, cita o Le Monde.
O jornal chama a atenção para a chamada "exceção brasileira" único pais submetido a uma ditadura na América Latina que não passou pelo ajuste de contas com seus opressores. O país nunca debateu realmente as sequelas deixadas pela ditadura como ocorreu na Argentina e Chile. O Le Monde conclui dizendo que a evolução deste caso num ano eleitoral vai mostrar se o Brasil está disposto ou não a olhar para o seu próprio passado para reforçar sua democracia.