Segunda-Feira, 01 de Julho de 2013

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Curitiba: Perito comparou UTI do Evangélico a campo de concentração

"Alguns profissionais da área com os quais tenho tido contato defendem que as investigações devam 'parar por aqui'. Discordo frontalmente".

Publicada: 19/03/2013 - 15h02m|Fonte: Vi o Mundo|Versão para impressão|

  • Curitiba: Perito comparou UTI do Evangélico a campo de concentração
Mário Lobato: "Alguns profissionais da área com os quais tenho tido contato defendem que as investigações devam 'parar por aqui'. Discordo frontalmente". Foto: Arquivo pessoal

Mário Lobato: “Perito comparou o que achou na UTI do Evangélico a campo de concentração”

por Conceição Lemes

Em 19 de fevereiro, quando a polícia prendeu a médica Virgínia Helena Soares Souza, chefe da UTI do Hospital Universitário Evangélico de Curitiba, o meio médico chocou. Quase todo mundo achou absurda a suspeita de que ela poderia ter induzido à morte pacientes ali internados.

“Era e é tudo tão surreal”, observou a médica Fátima Oliveira, num e-mail que trocou com esta repórter e o médico Mário Lobato, semana passada. “Mas pela minha leitura das falas divulgadas, não pelas matérias em si, é que havia fogo… tudo muito insano…Os prontuários falam muito mais do que supomos.”

No dia 11 de março, o Ministério Público do Estado do Paraná denunciou à Justiça Virgínia Helena Soares Souza, outros três médicos, três enfermeiros e uma fisioterapeuta, que também trabalhavam na UTI do Evangélico.

A denúncia do MP (na íntegra, abaixo) é aterradora. A sua leitura passa a impressão de que o local teria se tornado um “campo de concentração”. Profissionais, que deveriam estar ali para cuidar, estariam friamente exterminando pacientes do SUS.

Tão espantoso quanto a acusação do MP contra os oito profissionais (“se associaram para o fim de cometer homicídios de pacientes internados na UTI geral daquela casa de saúde”) é o período em que os atos ocorreram. Segundo o MP, eles aconteceram pelo menos de janeiro de 2006 até 13 fevereiro de 2012, quando a médica Virgínia Helena foi presa.

Ou seja, seis anos se passaram. Por que tanto tempo para isso ser denunciado?!

Os pacientes/familiares, até dá para entender. Já o longo silêncio dos profissionais de saúde é incompreensível. Será que não perceberam? Ou preferiram ficar na moita em nome do emprego?! A denúncia do MP relata sete óbitos. Teriam sido mais? Quantos, afinal?

Eu entrevistei o médico e blogueiro Mario Lobato da Costa sobre o caso. Ele é auditor do Departamento Nacional de Auditoria do SUS e membro do grupo de sindicância instituído pela Secretaria Municipal de Saúde para investigar o caso.

Viomundo — Quando o caso da chefe da UTI do Hospital Evangélico veio a público, você acreditou ou temeu estar diante de um novo caso da Escola Base?

Mario Lobato – O pessoal do Ministério Público esteve pessoalmente conversando conosco na Secretaria Municipal da Saúde. Nos informaram sobre os detalhes da investigação, depoimentos das testemunhas, escutas telefônicas. Com esses dados, ficou claro para mim que existiam indícios importantes a serem investigados em profundidade.

Viomundo — A UTI do Evangélico se tornou “um campo de concentração”, onde pessoas foram exterminadas friamente, sem chance de reação?

Mario Lobato — Os depoimentos que vieram a público e o teor das escutas são contundentes. Acompanhei no MP alguns depoimentos de familiares e ex-funcionários. São pavorosos.

Essa imagem de “campo de concentração”, que você usou, coincidentemente também apareceu em comentário de um dos peritos da área de terapia intensiva que participaram das investigações. E olha que ele coordena uma UTI, consequentemente, em princípio, deveria estar familiarizado com esse tipo de situação. Ele ficou chocado com o que achou; comparou a campo de concentração, de extermínio, na época do nazismo na Alemanha.

Viomundo – De acordo com a denúncia do MP, o grupo usava a mesma tática. Dava medicamentos para o paciente depender mais da ventilação feita por aparelhos. Só que, ao mesmo tempo reduzia o funcionamento dos equipamentos e ele tinha asfixia. O que a pessoa com a asfixia sente?

Mario Lobato – Na maioria dos casos apresentados na denúncia-crime do MP, o procedimento era quase que “padrão”. Aplicava-se um coquetel de medicamentos sedativos associados a um curarizante (medicamento que paralisa os músculos, inclusive os responsáveis pela respiração), geralmente o pancurônio (nome comercial pavulon), e os parâmetros do respirador eram então diminuídos. Com isso, se provocava a diminuição da oxigenação do paciente e – tecnicamente – a morte se dava por asfixia.

Segundo o professor Genival Veloso França, no seu livro Medicina Legal, os sintomas da asfixia têm duas fases.

Uma é de irritação, formada por dois períodos: o da dispneia respiratória (a pessoa ainda tem consciência), que dura cerca de um minuto; e o da dispneia expiratória (a pessoa está inconsciente, tem perturbações da sensibilidade e convulsões tônico-clônicas), que dura cerca de três minutos.

A outra fase é a de esgotamento. Apresenta um período inicial, ou de morte aparente, e outro terminal.

Viomundo — Segundo a denúncia do MP, esses atos teriam acontecido de janeiro 2006 a 19 de fevereiro de 2013. Como ninguém percebeu isso antes e denunciou? Foi corporativismo, medo de perder o emprego ou o quê?

Mario Lobato — As UTIs são espaços reservados, existe circulação restrita de pessoas. Isso dificulta o acompanhamento, mas não impede. A UTI do Evangélico (mas não só ela!) não produzia relatórios e dados estatísticos que permitissem melhor avaliação da qualidade dos serviços produzidos. Ressalte-se que isso ocorria dentro de um hospital universitário, de ensino, que teria a obrigação agir dessa forma.

O Hospital Evangélico, mesmo sendo universitário, aparentemente não possui auditoria interna implantada. E caso tenha, não funcionou.

Também os sistemas de controle do gestor municipal nesses últimos anos limitaram-se ao acompanhamento de documentos de cobrança e metas contratadas, baseados em sua maior parte na produção de serviços.

Não se pode admitir que a relação contratual de serviços públicos de saúde continue a repetir a mesma lógica contábil dos serviços privados, que é baseada na relação de consumo.

O controle e a avaliação de serviços prestados ao SUS precisam ter padrões de qualidade, eficiência, efetividade, economicidade… Tem de se esquecer a relação mediada pela “tabela do SUS”.

Viomundo — A denúncia do MP relata sete óbitos. A polícia levou um ano investigando. Será que vidas não poderiam ter sido salvas nesse período, afastando de cara os profissionais suspeitos?

Mario Lobato – Embora a sua linha de raciocínio seja bem plausível, não posso responder pela polícia. Suponho que ela deva ter tidos motivos objetivos para estender o período das investigações.

Viomundo — Tem-se uma estimativa de quantas pessoas poderiam estar vivas se tivessem recebido cuidado adequado?

Mario Lobato – Não.

Viomundo – Qual a lição desse caso?

Mario Lobato – Alguns profissionais da área com os quais tenho tido contato defendem que as investigações devam “parar por aqui”. Alegam já existir elementos suficientes para levar a doutora Virgínia e os outros sete funcionários envolvidos a julgamento. Alegam também que, caso as investigações se prolonguem, todas as UTIs do país podem ficar sob suspeita e isso poderá levar a uma comoção social.

Eu discordo frontalmente desses colegas.

Em primeiro lugar, tenho a convicção de que a sociedade tem o direito de saber a verdade. Toooooooooooda a verdade! Se algum parente meu tivesse falecido durante o período investigado, eu gostaria muito de saber o que foi que aconteceu.

Em segundo lugar, todas as ações de saúde são de relevância pública (está lá na constituição, artigo 197). Todos os serviços, sejam “SUS” ou “não SUS”, devem respostas à sociedade. Eles têm de ser prestados com qualidade, humanização, eficiência…

Espero que o caso do Evangélico leve todos nós – sociedade e serviços que devem servir a sociedade – a caminhar nesta linha. Transparência faz bem a saúde.

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