Domingo, 07 de Setembro de 2014

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Cuidado: Israel quer ocupar a sua timeline

Para fazer frente aos protestos e o sentimento pró-Palestina que se propaga na internet, o governo israelense recruta universidades e paga estudantes pelas postagens e criação de memes em seu favor

Publicada: 22/07/2014 - 14h32m|Fonte: Rita Freire - Ciranda Internacional|Versão para impressão|

  • Jovens recrutados por Israel para fazer a contra-viralização, e defender a operação contra Gaza.
  • Jovens recrutados por Israel para fazer a contra-viralização, e defender a operação contra Gaza.
    Foto: The Sidney Morning Herald
Israel não foi pego desprevenido pela resistência nas redes sociais. Desde que viu o uso da internet na primavera árabe, em 2011, e as ocupações que se seguiram organizadas em rede, nos Estados Unidos, na Espanha, e em várias partes do mundo, o estado procurou organizar sua estratégia virtual pagando estudantes para propagarem as mensagens sionistas.

Em uma cooptação que cobriria de vergonha educadores como o judeu Janusz Korczak, o governo introduziu a compra da consciência e ativismo da juventude na sua estratégia de diplomacia.

Um primeiro acordo foi feito com a União Nacional de Estudantes de Israel (NUIS), segundo o site Eletronic Intifada, que teve acesso ao documento da organização estudantil em hebraico e o traduziu ao inglês, destacando alguns trechos, como este:

Após o treinamento, começam as atividades. O estudante fará sua atividade no conforto de sua casa, onde a cada semana será obrigado a cinco horas de atividades, pelo período de um ano (não o ano acadêmico). Os estudantes serão pagos em um total de NIS 7,500 [$2,000] para fazer as tarefas do projeto, pelo menos cinco hora semanais, e um total de 240 horas sob o projeto guarda-chuva.

De acordo com o estudante canadense Igal Raich, que se mudou para Israel para prestar o serviço militar, e hoje integra a ação virtual israelense, o primeiro recrutamento foi destinado a fazer propaganda a favor da Operação Pilares da Defesa, que matou centenas na Palestina em 2012.

Em 2012, os jovens recrutados entraram em campo para conter, já na época, as fotos de corpos mutilados e amontoados de crianças que começaram a pipocar nas redes. De acordo com as fontes ouvidas pelo jornal australiano The Sidney Herald Tribune, 1600 estudantes se voluntariaram a distribuir mensagens a 21 milhões de pessoas em 62 países, em 31 idiomas.

Somado à contra-propaganda israelense, o aspecto chocante das imagens inibiu que fossem reproduzidas fartamente no Ocidente, pudor que seria deixado de lado por internautas em todo mundo, em 2014, ao ficar claro que as crianças palestinas são de fato alvos do exército Israelense.

Em 2013, o jornal Huffington Post divulgou a oferta de bolsas para estudantes dispostos a fazer propaganda sionista e combater a campanha BDS. A públicação referiu-se à notícia da Associated Pressreproduzida em vários jornais, segundo a qual os estudantes poderiam se manter anônimos se quisessem, não só na rede, mas quanto a participarem do programa, que teve um orçamento de US$ 778 mil.

O trabalho pode ser atacar o Hamas ou propagar o medo, em postagens infantilizadas como a que avisa que o próximo alvo pode ser a Europa.



A operação vai ganhar reforços

Em 2014, as universidades estão sendo chamadas a fazer frente à nova avalanche de imagens que confirmam o sofrimento palestino como o maior espetáculo da sordidez humana jamais exibido ao vivo e online. Os estudantes de Israel vão sendo organizados como tropas da contra-informação.

O jornal The Independent, descreveu o esquema montado em 2013, em que os alunos de cada universidade são organizado em unidades. O coordenador-chefe recebe bolsa de estudos integral. Três chefes de área, que cuidam dos idiomas, imagens e charges, e de pesquisas na rede, recebem bolsas parciais. Os alunos recrutados recebem bolsas menores.

O jornal australiano The Sidney Morning Herald mostrou na sexta-feira (18) um dos laboratórios em funcionamento agora (foto acima) e informou que cerca de 400 estudantes se inscreveram para a tarefa da contra-ofensiva virtual do Centro Interdisciplinar.

O projeto leva o nome de "Israel sob ataque". O canadense Igal Raich explica que os estudantes são recrutados para combater a falsa imagem de Israel propagada nas redes, como aquela de que Israel mata crianças constantemente. O trabalho é derrubar páginas do facebook e acusar o Hamas de jogar foguetes. A equipe conta com tradutores do hebraico para 30 idiomas, além de artistas gráficos e videomakers. O escritório do primeiro ministro seleciona alguns posts e os promove, pagando para ampliar seu alcance.

Possivelmente o governo está utilizando também aplicativos, suspeita levantada pelo Tha Nation, em relação a postagens através do Tinder, usado em smartphones, com mensagens curtas pró-Israel, como as que acusam Gaza de usar civis como escudos e o Hamas de bombardear Jerusalem.



O jornal israelense Haaretz aponta o diplomata Danny Seaman como mentor e diretor do projeto e o descreve como um anti-islamico que posta, ele mesmo, mensagens incendiárias em seu facebook, a exemplo desta: "O começo do jejum do Ramadan significa que os muçulmanos vão parar de comer uns aos outros durante o dia?"

O estímulo ao ódio parece estar contaminando toda uma geração de internautas que posta mensagens terríveis contra os árabes, como as levantadas pelo canadense David Sheen, em uma busca nas redes, utilizando a palavra aravim que significa árabes, em hebráico. O que ele encontrou está descrito no site Mondoweiss e faz temer pela deformação deliberada, por obra do estado, de uma juventude que não tem pruridos em desejar tortura e morte aos palestinos.

O The Sidney Morning Herald aponta, em um pequeno parágrafo, que do outro lado da guerra das redes sociais estão as contas das Brigadas al-Qassam, exército do Hamas, e de civis palestinos que são alvos dos ataques, que postam fotos de crianças feridas e vídeos com mísseis vindo de Israel.

O fato é que, do lado dos ativistas, soldados da resistência e vítimas do bombardeio, é preciso contar também a sociedade civil internacional, com suas mídias ativistas e internautas que compensam a falta de instraestrutura da Palestina para divulgar amplamente o massacre, ao contrário do que se vê nas bem equipadas universidades de Israel.

Do lado sionista, estão jovens estudantes, transformados em mercenários virtuais pelo seu próprio governo. Possivelmente, o problema de Israel não seja sequer a comunidade internacional, mas a estratégia de recrutar e pagar estudantes para propagandear Israel pode ter como alvo os próprios jovens israelenses e judeus ao redor do mundo que, expostos às informações da internet, podem se convencer de que o estado erguido em seu nome se transformou em um estado cruel a serviço da indústria de guerra que construiu.

No vídeo abaixo, a jovem judia Margot Goldstein, que integra a Rede de Judeus Anti-sionistas, discursa em São Francisco contra a ocupação e defende que a Palestina seja livre.

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