Quinta-Feira, 10 de Outubro de 2013

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Austeridade fiscal: as novas armas de destruição em massa

Talvez o aspecto mais famoso do modo pelo qual nos foi vendida a Guerra do Iraque foi a falsidade de seu pretexto.

Publicada: 28/07/2010 - 10h04m|Fonte: Carta Maior - Christopher Hayes|Versão para impressão|

  • Austeridade fiscal: as novas armas de destruição em massa
Talvez o aspecto mais famoso do modo pelo qual nos foi vendida a Guerra do Iraque foi a falsidade de seu pretexto. Nunca houve armas de destruição de massa, conforme acabou por admitir o próprio Paul Wolfowitz. Elas eram apenas “algo sobre o que o todo mundo concordava”. E assim ocorre agora também com os déficits públicos. Os conservadores e seus aliados querem desmontar o Estado democrático e social de direito e redistribuir a riqueza para os de cima. Esse é o objetivo. Os déficits só são “algo sobre o que todo mundo concorda”, as armas de destruição de massa desta crise fabricada.

O artigo é de Christopher Hayes, editor da The Nation.

Se vocês prestarem atenção no que ocorreu na última década, não será surpreendente constatar que as elites políticas dos EUA se achem agora em meio a uma atabalhoada discussão sobre o futuro da nação estadunidense. Mas, mesmo descontando os níveis de degradação a que chegaram o establhisment de Washington, não deixa de ser assombroso o pânico criado em torno do tema da dívida pública.

Comecemos pelos fatos. Quase todo o déficit deste ano e os déficits que se projetam para o curto e médio prazo é resultado de três coisas: as guerras em curso no Afeganistão e no Iraque, os cortes de impostos de Bush e a recessão. A solução para nossa situação fiscal é: terminar com as guerras, deixar que expire o prazo dos cortes de impostos e restaurar um crescimento robusto.

Nossos déficits estruturais no longo prazo exigem que sejamos capazes de controlar a inflação na assistência de saúde do mesmo modo que o fazem os países com sistemas de saúde com cobertura universal.

Agora mesmo enfrentamos uma crise de desemprego que ameaça nos mergulhar em um grave e longo período de baixo crescimento, uma espécie de década perdida que causará uma tremenda miséria, degradaráo o capital humano da nação, desbaratará a todo uma geração de jovens trabalhadores durante anos e abrirá um rombo no balanço contábil do Estado. O melhor para sair deste cenário é mais gasto público para tutelar o regresso da economia a um caminho saudável. Pode ser que a economia esteja viva, mas isso não significa que esteja sã. Há razões para seguir tomando antibióticos no momento em que começamos a nos sentir bem.

No entanto, o tamborilar filisteu de pânico dos histéricos do déficit torna-se a cada dia mais ensurdecedor. A julgar por seu programa e seu vídeo on-line, o Festival Aspen das Idéias deste ano foi uma orgia ao ar livre de discursos anti-déficit. O Festival é uma boa janela para observar as preocupações da elite. O fato que seu forum de abertura estivesse saturado pelos abomináveis alertas sobre a quebra vindoura pronunciados por pessoas como Niall Ferguson, Mort Zuckerman e David Gergen é um mau augúrio. Do mesmo modo o painel intitulado “A inquietante emergência fiscal na América: como equilibrar as contas”. Essa atitude não é exclusiva dos colunistas e dos tertulianos midiáticos. Os dirigentes da comissão fiscal de Obama qualificaram de “câncer” os déficits públicos projetados.

A histeria chegou a tal extremo que os senadores republicanos (aos quais se juntou o senador democrata por Nebraska, Ben Nelson) praticaram obstrução parlamentar contra um projeto de extensão das ajudas ao desemprego porque ele não vinha acompanhado de cortes do gasto público. Recorde-se que o custo desta extensão de auxílio para pessoas suficientemente desgraçadas de modo a ser verem apanhadas entre as garras da pior recessão dos últimos 30 anos era de 35 bilhões de dólares. A lei contribuiria para aumentar a dívida em menos de 0,3%.

Tudo isso resulta estridentemente familiar. A atual deliberação – se assim pode ser chamada – sobre os défcitis traz à memória a deliberação nacional sobre a guerra às vésperas da invasão do Iraque. De um dia para o outro, o que outrora fora considerado tolerável pelo establihsment tornou-se subitamente intolerável: uma crise de urgência tão peremptória que exigia das “pessoas sérias” a fabricação imediata de idéias capazes de lidar com ela. O encargo da prova das pessoas que apoiavam a guerra para as pessoas que se opunham a ela, e passou também toda a possibilidade de argumentação.

Agora somos colocados na mesma situação em relação à dívida pública. Em meio a um desemprego oficialmente reconhecido de 9,5% e de uma contração global da economia, a última coisa sobre a qual deveríamos estar falando é de déficits no curto prazo. No entanto, no presente, o bilhete de entrada do clube da “gente séria” exige, não um plano para reduzir o desemprego, mas sim um plano para travar uma guerra sem quartel contra os insivíveis e até agora incorpóreos traficantes de dívida pública que estariam preparando um ataque contra o dólar.

Talvez o aspecto mais famoso do modo pelo qual nos foi vendida a Guerra do Iraque foi a falsidade de seu pretexto. Realmente, nunca houve armas de destruição de massa, conforme acabou por admitir o próprio Paul Wolfowitz. As armas de destruição de massa eram apenas “algo sobre o que o todo mundo concordava”.

E assim ocorre agora também com os déficits públicos. Os conservadores e seus aliados lidam sem cuidado com os déficits; o que importa a eles é a austeridade: desmontar o Estado democrático e social de direito e redistribuir a riqueza entre os de cima. Esse é o objetivo. Os déficits só são “algo sobre o que todo mundo concorda”, as armas de destruição de massa desta crise fabricada. O senador John Kyl, do Arizona, em declarações à cadeia (de ultra-direita) Fox News, chegou ao ponto de admiti-lo abertamente. É preciso evitar qualquer aumento de gasto, disse, “mas nunca deveria se evitar o custo de uma decisão deliberada de reduzir os impostos para os estadunidenses”.

Lembre-se que a Guerra do Iraque poderia ter sido evitada e mais congressistas democratas tivessem se oposto a ela. Em troca, votaram a favor muitos que sabiam plenamente que estava sendo gestado um colossal desastre alimentado pelas pressões ultradireitistas e pelos falcões midiáticos.

O erro se repete agora, Apesar de os economistas da Casa Branca terem acordo sobre a necessidade dos estímulos públicos diante de um desemprego astronomicamente elevado, o New York Times nos informa que os os cérebros políticos da Casa Branca – David Axelrod e Rahm Emanuel – decidiram que a opinião pública perdeu o apetite pelo aumento do gasto público. “Meu trabalho consiste em informar o humor público”, disse Axelrod. Logo em seguida apareceu no “This Week”, programa da cadeia ABC, para acenar a bandeira branca e declarar que o presidente seguiria pressionando em favor da ampliação dos auxílios para o desemprego; sintomaticamente, omitiu-se qualquer menção às ajudas aos governos dos estados federados, originalmente incluídos na carta dirigida em junho passado pelo presidente ao Congresso solicitando um pacote de estímulos.

Mas não devemos perder a esperança: a opinião pública anda muito longe de estar obcecada com o déficit público; está muito longe, portanto, dos humores de Washington. Segundo uma pesquisa conjunta do jornal USA Today e do instituto Gallup, cerca de 60% dos estadunidenses apóiam “um maior gasto público para criar emprego e estimular a economia”, contra 38% que se opõe a isso. Uma pesquisa realizada por Hart Research Associates, publicada em junho passado, mostrava que dois terços dos norte-americanos estavam a favor da ajuda pública aos desempregados. Assim, se há “pouco apetite” é para uma contra-reforma que corte direitos sociais e atinja a Seguridade Social. A lição da Guerra do Iraque é que, no longo prazo, a boa política não pode se separar das boas políticas públicas. Se a Casa Branca sente-se tentada a desenvolver más políticas de curto prazo porque isso parece menos arriscado politicamente, deveria telefonar para John Kerry e perguntar se isso funcionou como Iraque,

(*) Christopher Hayes, analista e crítico cultural norteamericano, editor em Washington da revista The Nation.

Tradução: Katarina Peixoto

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